Sons da Escrita 074

5 de Agosto de 2006

Segundo programa do ciclo Ruy Belo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Ruy Belo

José, o homem dos sonhos (Ruy Belo)

Que nome dar ao poeta
esse ser dos espantos medonhos?
Um só encontro próprio e justo:
o de José o homem dos sonhos.

Eu canto os pássaros e as árvores
mas uns e outros nos versos ponho-os
quem é que canta sem condições?
É José o homem dos sonhos

Deus põe e o homem dispõe
E aquele que ao longo da vereda vem
homem sem pai e sem mãe
homem a quem a própria dor não dói
bíblico no nome e a comer medronhos
só pode ser José o homem dos sonhos.


A horse with no name (America) 

On the first part of the journey,
I was looking at all the life.
There were plants and birds. and rocks and things,
There was sand and hills and rings.
The first thing I met, was a fly with a buzz,
And the sky, with no clouds.
The heat was hot, and the ground was dry,
But the air was full of sound. 

I've been through the desert on a horse with no name,
It felt good to be out of the rain.
In the desert you can remember your name,
'Cause there ain't no one for to give you no pain. 

After two days, in the desert sun,
My skin began to turn red.
After three days, in the desert fun,
I was looking at a river bed.
And the story it told, of a river that flowed,
Made me sad to think it was dead. 


After nine days, I let the horse run free,
'Cause the desert had turned to sea.
There were plants and birds, and rocks and things,
There was sand and hills and rings.
The ocean is a desert, with its life underground,
And a perfect disguise above.
Under the cities lies, a heart made of ground,
But the humans will give no love.


Ruy Belo

Sou alto como a própria solidão (Ruy Belo)

Sou alto como a própria solidão, mas sob aquela madrugada lúgubre, com a obstinação recôndita dos mortos, eu sofro muito mais por possuir um nome.
Quando mordias um secreto pranto nos bocejantes domingos da morte, gostava de andar de quarto em quarto entre as algas da minha intimidade.
Nesta outonal paixão dos meus sentidos, já entristeces na distância larga, cavada como vala entre nós dois.
Coração condenado à incerteza, custou-lhe enormemente a descobrir os privilégios da simplicidade pelo ar azulado da neblina.
Sempre o melhor amigo é o que acaba de morrer.
Uma tarde de agosto (oh o mês de agosto), chovia tristemente nessa tarde.
Passei aquela tarde a ver cair uma chuva miúda nas begónias, sítio onde apodreceram os afectos, um animal feliz, um artesão sem nome.
Passei aquela imensa triste tarde a ver pela janela os velhos plátanos, por fim, a invencível claridade do verão, e celebrei um honrado contrato com a solidão, naquela, ao fim, imensa noite de cavalos à solta, num novel jardim de nardos.
Comi melão já nos finais do verão, quando aprendi a versificação latina e contemplei a minha solidão.
Cada dia mais próximos da morte, vemos nela uma mulher de cabelo, afinal comprido, cava profundidade do silêncio. O que se pode é contemplar a chuva. Espero que passe a chuva pra morrer, após os sóis de três verões consecutivos.
Disponho por cadeiras os meus mortos, o tempo que gastavam em gastar-se, segundo um centro de recordações.
E são recordações indestrutíveis, um combóio que passa toda a tarde, os prados da definitiva morte, a criança outonal e solitária perdida entre variadas violetas, à hora prima das amendoeiras, os salmos lúgubres do fim da tarde.
Encontro-me nas vértebras do sábado, vou até ao passado por desfiladeiros, murmúrios de gerânios já antigos, na última manhã da minha terra.
Não quero saber nada, nada importa. Há é gente que acerta e gente que erra.


You know I'm right (David Guilmour)

You can scream and shout with all your might
Dig in your heels and hold on tight
Either you are wrong or I am right

You speak the lines you've overheard
The ring of truth in every word
You know you're right and that's absurd

We really seem to have a problem here
But it is you or me
Whatever I have going through my mind
You always have to disagree
It's just a matter of opinions
It's not a simple fact
Why don't you try to see the other side
Don't turn your back

Now we survey this silent battleground
Recriminations all around
And still no compromise is found

Now we really have a problem
And it won't just disappear
And all the friends we thought we could rely on
Just want to whisper in my ear

"It's just a matter of opinions
You know you keep both in sight
Why should you bother with the other side
When you know yours is right."


Ruy Belo

Os pássaros da noite (Ruy Belo)

Os pássaros da noite povoavam as tílias desta minha solidão.
O juízo severo dos seus olhos, de olhar onde cabia o pensamento, a luz e a sombra de uma geração, precariamente iluminavam uma alma que punha a salvação no mais profundo sono.
Um castanheiro, filho descuidado do meio-dia de uma ramagem lenta e ondulante, sorria com sorrisos litorais em um jardim em flor do meu desejo.
Homenageio aquela primavera, primeira primavera da amizade.
Tudo era pensamento para ele mesmo, até caminhos que não levam a qualquer parte sabida ou sequer desconhecida.
Belo país da arte, eu te saúdo: as imagens levantam-se no ar e um mundo litúrgico, somente imaginado, repovoa as sendas dos amantes verdadeiros, onde as palavras só vinham depois.
Põe só a tua mão perto de mim, sob os lobos de pedra em cada capitel.
Oceanos de olvido, na memória esse país longínquo donde venho, núvem de vida sobre a minha morte.
Apaga o tempo de uma má reputação, anos de inquietação, de espanto, de vergonha, estrela da minha infância, ergue-te de novo: tu que eras para mim o sol, a lua deslumbrante, manhã da existência.


Morning has broken (Cat Stevens)

Morning has broken
like the first morning
blackbird has spoken
like the first bird
praise for the singing
praise for the morning
praise for them springing
fresh from the word
sweet the rain's new fall
sunlight from heaven
like the first dewfall
on the first grass
praise for the sweetnes
of the wet garden
sprung in completeness
where his feet pass
mine is the sunlight
mine is the morning
born of the one light
Eden saw play
praise with elation
praise every morning
God's recreation
of the new day
morning has broken


Importa-me é o curso do dia e da noite. Vou andar um bocado nos caminhos.
É pela hora em que não há ninguém, nudez desprevenida dos meus dias, mas só de noite desço até ao mar, após as sete horas da tarde, hora crepuscular os cheiros confortáveis e antigos, imagens dum lirismo fraudulento, um conforto, algo tanto apreensivo, coisas que desde a infância a construíam.
Mudo de opinião continuamente. Espero o teu regresso pela tarde e cuidadosamente velo a minha cólera.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson

Ligações
America, David Guimour, Cat Stevens

Textos:
Ruy Belo

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012