Sons da Escrita 075

12 de Agosto de 2006

Terceiro programa do ciclo Ruy Belo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Ruy Belo

O que dirá de mim o castanheiro do outono (Ruy Belo)

O que dirá de mim o castanheiro do outono, a estação do que passa e se desfaz?
Esqueci a minha infância e não sei nada. Estou à sombra e espero: alguém virá, sombria melodia do meio-dia, o perfume dos campos cavalgados na quente luz do dia em que eu vivia. Alguém me chegará desse distante bosque, onde eu errei a minha juventude nas formas levemente tacteadas pelos dedos.
Não me demoro ou moro em sítio algum, já nada significam as palavras neste deserto onde vigilo e estou desperto, terrivelmente só dentro da noite.
Ali, no silêncio profundo da floresta, ao teu singular olor de singular mulher, crucifiquei a minha juventude.
A vida tem aspectos criminosos, como a subida da chama silenciosa na haste da mulher que se procure.
Não há nenhum regresso nos meus passos, a lua era outra lua de hora a hora, a natureza espera-me, faz-me sofrer troncos incendiados no outono, depois adormecidos no inverno, o aspecto humano de uma terra cultivada.
Melodia da voz que abre os corações, pássaro disparado pelos ares, a gratidão que segue a solidão, tudo aquilo era belo e era bom, sabia a alimentos e a paz, a homens, a calor, a infância e lar. Ela trazia amor nas suas mãos.


Love (Man) 

Day after day had passed
Shadows cast
Of long forgotten things
That I had failed to do
Passing through
Nameless places
Then I heard you speak
I held my breath and turned
Saw you, and heard you say to me
"Have you a cigarette?"
So we met, and love was something real and not a word

And there were times she took my breath away
She gave me thoughts to think and words to say

We were so happy then
Life began
When all at once
Her eyes grew cold
She spoke to me
Laughed at me
Telling me
That I was just a joke
She doesn't want me now
Tells me how
All she ever wanted was to see me cry
And now I'm all alone, I know she's satisfied

Now when she leaves she'll take my life away
And so the curtain falls and ends the play

She'll take my life away
She'll take my life away


Ruy Belo

Canto o homem solar (Ruy Belo)

Canto o homem solar que pisa a neve.
A palavra confirma-se em silêncio, as metáforas sobem, as metáforas descem.
O homem é desejo e não trabalho — é essa mesmo uma das suas definições.
Todos os paraísos se baseiam no presente, mas ao matar a morte, matam o prazer. O agora do corpo une-nos à morte.
O que é que eu fiz da minha juventude? — pergunta Tristão, uma vez findo o sortilégio que o unia a Isolda, a loura e do rosto claro.
Canto esse antigamente, esse tempo, impossível hoje para nós, quando Rivalen, o súbdito de Marc, com o furor dos amadores da cornoalha, se apaixonou por Brancaflor, irmã de Marc, e assim deu início a um conto do amor e da morte.
Isolda amou Tristão com louco amor e ouvia o seu cantar, como só canta o rouxinol, quando o verão acaba.
Ambos refugiados na floresta de Morois, vêem chegar a estação quente uma terceira vez, tão belos e imóveis como estátuas. Mas Marc, o ingénuo tio de Tristão, em vez da realidade, via as aparências e quanta tortura, amor, terá causado.
A única época feliz do homem terá sido o neolítico, quando o momento triunfava do futuro. Aquele que depois se dedicou a edificar a casa de amanhã foi vítima do quadro do presente.
O paraíso é de anjos e animais. Articulemos nós, só a palavra vida.
Com a frágil felicidade sempre ameaçada, Tristão despede-se da sua loura amiga e extrai o seu prazer do esquecimento.
Pesa-lhe na cabeça um pensamento, aves do bosque, sede ao seu serviço.
E Tristão busca Isolda, com a cruz no crâneo dos loucos de outrora.
Quando o sol se levanta, traz a claridade. Deixai-os ir ao fundo da loucura no país afortunado dos viventes. Mas nunca mais na vida a voltaria a ver. Cólera de mulher é coisa de temer e a mulher de Tristão fá-lo morrer antes que chegue o navio de Isolda.
Sem alteridade não há unidade.


Song of Isolde (Andreas Vollenweider & Elysa Gilkyson)

Wake up, wake up Tristan
Our bed of leaves and sand is cold

I fell asleep here in your arms
More then a thousand years ago

Wake up, wake up Tristan
The wind breathes dark words through the forest

There is sorrow on the land
Love must have cast a spell upon us

The path lies open there before us
Wake up, wake up Tristan


Ruy Belo

A poesia pode muito (Ruy Belo)

A poesia pode muito para mim, pois vem iluminar os meus fantasmas. Quando uma sociedade se corrompe, corrompe-se primeiro a linguagem.
A tarde escreve uma curva suave. Vou muito simplesmente com o vento sem sequer conhecer que fujo de mim mesmo. O trigo na campina amadurece, passeio no jardim, a cena passa-se no espírito. Digo-te adeus e digo adeus à minha juventude.
Falo desses teus olhos matutinos, coroo-te de flores, ó donzela tão branca como a cera alta, como a gazela.
Tens no olhar o prestígio da guerra, voz velada de sol, talvez luar.
Quero um país que tenha a minha idade.
Sinto ter, ante mim, tempos sem fim. Chego ao termo de quanto pode amar um homem. Já não há uma pátria para mim. Falas e logo o tempo se detém na fragrante fragrância do teu rosto, que luz constantemente em abundância.


Don't speak (No Doubt)

You and me we used to be together
Every day together, always
I really feel that I'm losing my best friend
I can't believe this could be the end
It looks as though you're letting go
And if it's real, well I don't want to know

Don't speak
I know just what you're saying
So please stop explaining
Don't tell me 'cause it hurts
Don't speak
I know what you're thinking
I don't need your reasons
Don't tell me 'cause it hurts

Our memories they can be inviting
But some are altogether mighty frightening
As we die, both you and I
With my head in my hands I sit and cry

It's all ending
Gotta stop pretending who we are

You and me
I can see us dying, are we?


Chegou enfim o tempo do adeus. Oiço a canção efémera das coisas. Despeço-me da terra da alegria. Já reconheço a música da morte. Severos, surdos saem os meus sons, destino humano instável, enfim móvel. O seu pequeno pé, o seu pescoço branco, reflexo do ouro, tão propício ao sono e música de outono e de abundância, o seu rosto real era recusa.
Pelas alturas coloridas do outono, canto a canção inquieta do amor, cabeleira precursora do amor, amor misterioso e perigoso, nada mais do que triste, triste apenas, ó mulher loura: sorridentemente dou-te um beijo alto como um sacramento.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Tangerine Dream

Ligações
Man, Andreas Vollenweider & Elysa Gilkyson, No Doubt

Textos:
Ruy Belo

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012