Sons da Escrita 421

16 de Novembro de 2012

Segundo programa do ciclo Ruy Cinatti

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.

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Solidão na cidade e sonho

O que eu desejo,
ó luarenta cidade»,
disse o rio,
«é que ninguém te toque.»

Imóvel, paredes mestras
afundando-se na sombra.
Ruas prolongadas,
abertas em campo grande,
fechadas em poços negros,
por onde tirita, de febre,
um homem.

Eu, rio apreendido,
captado veio d'água
na rede do espírito
que deambula sem norte.

Qualquer parcela de mim
que pouco a pouco se eleva
no nevoeiro nascente
que do rio sobe
e a cidade cobre.

Nenhum pássaro cantou
na madrugada. Eu corri
contra a força de uma vela,
e tu, árvore imóvel.

Som a tempo, respondi
marulhar d'águas nas folhas
caindo no cais deserto
onde se aproxima um homem.

«O que eu desejo,
ó luarenta cidade»,
disse o rio,
«é que ninguém te toque.


Can I touch you… there (Michael Bolton)

Baby, show me what you feel
Come to me, show me somethin' real
I need to know, I need you completely
(closer, baby, closer) Come on closer, baby (let's begin)
Love is takin' over, gotta let it in
Ooh and I need to feel the heart of you
I need to reach the very deepest part of you

Can I touch you there, touch you deep inside
Can I touch your heart, the way you're touchin' mine
Can I touch you there, touch you deep within, oh
Can I touch you there, can I touch you oh...(there)

Oooh Baby, tell me with your eyes
Tell me every secret, darlin'
Every deep desire, till you and I
Are makin' love completely
(closer,baby, closer) come on closer, baby,
(can't be close enough)
I can't help the way I hold you
I just hunger for your love
Oooh and I need to feel the heart of you
I need to reach the deepest part of you

All I wanna do is touch you, baby
Touch you very soul inside of you
Oooh and I need to feel the heart of you
I need to reach the very deepest part of you
Oh, let me be the one to show you
Just what love can do
Come on, baby, come on


O calor da noite

Uma estrela acima da pupila.
Uma árvore serena, musical.
Mais um navio que perturba a cena
à beira-rio
com luzes e o movimento ocasional
de um vulto que se aproxima,
de um cão que salta
e ladra furiosamente
dentro da noite.

Acaso gostaria de ser visto
e reconhecido
por alguém que gritasse o meu nome,

que me desse um pouco mais de cal
para caiar a casa, o meu rosto
interior - o que todos vêem
somente por ser tão natural.

Quem é que me troca pelo suposto
sósia que me acena ao largo
deste fértil oceano e nele navega?

Impossível pisar o chão que piso
quando uma voz se perde nas trevas,
sinistra e doce,
como um lamento.

O silvo do vento ouvido é um improviso
que me enlouquece.
Vibra na árvore.
Encrespa-se na esteira luminosa
onde o navio
desaparece.

No banco de um jardim
à beira-rio, era memória a hora
meridiana história
de vultos e navios,
de um homem só, perdido, e a noite imensa.


Heat of the night (Bryan Adams)

I was caught in the crossfire of a silent scream
Where one man's nightmare is another man's dream
Pull the covers up high - and pray for the mornin' light
Cause you're livin' alone - in the heat of the night

Met a man with a message from the other side
Couldn't take the pressure - had to leave it behind
He said it's up to you
You can run or you can fight (Ya that's right)
Better leave it alone - in the heat of the night

In the heat of the night they'll be comin' around
There'll be lookin' for answers they'll be chasin' you down
In the heat of the night
(Where ya gonna hide when it all comes down)
(Don't look back don't ever turn around)

Had to pay the piper to call the tune
Said he'd be back someday - said he'd be back real soon
Pull the shades down low - you'll know when the time is right
When you're lyin' alone in the heat of the night


Quando o amor morrer dentro de ti

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.


Love that never dies (Byrds)

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A praia foi lugar de muita espera.
A maré molhou-te
De improvisos. Chegou a noite
E abriu-te as portas
Ao sol poente. A noite
Para os poetas.

Passaram dias sem que a vida ousasse
Sujar-me de atritos
E a vida foi um gesto de água
Intenso de tráfego
Na ilha. Finalmente, os dias...

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kevin Kern

Ligações
Michael Bolton, Bryan Adams, Byrds

Textos:
Ruy Cinatti

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012