Sons da Escrita 422

28 de Julho de 2013

Terceiro programa do ciclo Ruy Cinatti

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.

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Regresso eterno

Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma idéia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita. A noite! Se fosse noite…
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentidos
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes refletem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.

Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho...
Tudo é possível porque a vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.


Return to innocence (Enigma)

That's not the beginning of the end
That's the return to yourself
The return to innocence
Love - Devotion
Feeling - Emotion
Love - Devotion
Feeling - Emotion
Don't be afraid to be weak
Don't be too proud to be strong
Just look into your heart my friend
That will be the return to yourself
The return to innocence
If you want, then start to laugh
If you must, then start to cry
Be yourself don't hide
Just believe in destiny
Don't care what people say
Just follow your own way
Don't give up and use the chance
To return to innocence
That's not the beginning of the end
That's the return to yourself
The return to innocence
Don't care what people say
Follow just your own way Follow just your own way
Don't give up, don't give up
To return, to return to innocence.
If you want then laugh
If you must then cry
Be yourself don't hide
Just believe in destiny.


Grande devaneio

Andar, andar
que a noite é bela.

Não tenho pressa,
andar, andar.

Quero chegar!

Se a noite é bela,
tão bela,
então me esqueça.

Então destrua os passos, os ruídos
com que respiro
o ar da noite.
Se outro não há
nome lhe dou:
bela!

Ah, minha noite!
viva forma do vento
do mar perfume e das flores
de cada lado do chão pisado
e dessa pressa
de chegar.

Andar, andar...

Noite anular
é meu destino.

Quero chegar!


Daydream (Lovin’ Spoonful)

What a day for a daydream,
What a day for a day dreamin' boy.
And I'm lost in a day dream,
Dreamin' 'bout my bundle of joy.
And even if time ain't really on my side,
It's one of those days for taking a walk outside.
I'm blowing the day to take a walk in the sun,
And fall on my face in somebody's new mowed lawn.
I've been havin' a sweet dream,
I've been dreamin' since I woke up today,
It's starring me in my sweet dream,
'Cause she's the one that makes me feel this way,
And even if time is passin' me by a lot,
I couldn't care less about the dues you say I got.
Tomorrow I'll pay the dues for dropping my load.
A pie in the face for being a sleepy bull toad.
And you can be sure that if you're feelin right
A day dream will last a long time into the night.
Tomorrow at breakfast you may prick up your ears,
Or you may be dreamin' for a thousand years.


Elegia

Sou rio que passa.
Vento.
Sou oração.
Sou alguém no céu.

Tardo sempre mais
a configurar-me
porque sempre sei
como retratar-me.

O retrato fica. 

A imagem vai-se,
não sei se no vento,
se na oração.

Sou no firmamento
imagem dum rio.
Sou no meu retrato
um homem a menos.


Elegia (Simone Bittencourt de Oliveira)

Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz, se um homem só a conquista

Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total, todo prazer provêm do corpo

(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita

Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la
Eu sou um que sabe.


Novidade é uma rapariga solta
que passa, 

me afaga, 

redime 

quando nela fito 

os meus olhos piscos
e rio.

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Gwendal

Ligações
Enigma, Lovin' Spoonful, Simone Bittencourt de Oliveira

Textos:
Ruy Cinatti

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012