Sons da Escrita 061

6 de Maio de 2006

Primeiro programa do ciclo Sebastião Alba

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Sebastião Alba

Certo de que voltas (Sebastião Alba)

Certo de que voltas, canção,
a incerta hora,
espero como quem mora
só, a visitação.

Sei, por sinais e anjos e desviados,
que rebentas dos sonhos desolados
em flores no chão.

Apenas flores, nem nimbos na lapela.
Flores para a mesa,
com o odor da certeza
de água, vinho e pão.

Apenas flores e tu,
ó meu amor sem nome,
e a nossa dupla fome
dum menino nu.


You make me believe (Simply Red) 

Sometimes you’re my mama
Sometimes my little baby girl
Occasionally you’re my puttana
But then you’re sweet, sweet sweet love
And it makes me believe
That I should never lose you love
You make me believe

Fulfil all my fantasies
Moisten up all my warmest dreams
Hold my love in silk bandanas
And then just scream, scream it love
Cause it would make me weep
If I should ever lose your love
Cause you make me believe

But then you’re sweet, sweet sweet love
And it makes me believe
That I should never lose your love
You make me believe


Sebastião Alba

Ninguém, meu amor (Sebastião Alba)

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos


Nobody (Paul Simon)

Who feels my flesh when I am gone
Who was a witness to the dream
Who kissed my eyes and saw the scream
Lying there
Nobody

Who is my reason to begin
Who plows the earth, who breaks the skin
Who took my two hands and made them four
Who is my heart, who is my door
Nobody
Nobody but you, girl
Nobody but you
Nobody in this whole wide world
Nobody

Who makes the bed that can't be made
Who is my mirror, who's my blade
When I am rising like a flood
Who feels the pounding in my blood
Nobody

Nobody but you
Nobody but you
Nobody in this whole wide world
Nobody, girl
Nobody


Sebastião Alba

Um anjo erra (Sebastião Alba)

Um anjo erra
nos teus olhos diurnos
humedecido do véu
(ao fundo, a íris entardece)
seguiu de cor a revoada das pombas
místico
um arroubo ascende a prumo
do plano em que me fitas
cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor, pelo estuário da sala
ao sol-poente
os vitrais das janelas
ardem na catedral assim erguida
colocamos um sonho
em cada nicho
e no círculo formado pelas nossas bocas
subentende-se com verve
a língua.


When poets dreamed of angels (David Sylvian)

She rises early from bed
Runs to the mirror
The bruises inflicted in moments of fury

He kneels beside her once more
Whispers a promise
"Next time I'll break every bone in your body"

And the well-wishers let the devil in
And if the river ran dry they'd deny it happening

As the card players deal their hands
From the bottom of te deck
Row upon row of feudal houses blown away
Medicine for the popular complaint

When the poets dreamed of Angels
What did they see?
History lined up in a flash at their backs

When the poets dreamed of Angels
What did they see?
The bishops and knights well placed to attack



Só anjos (estou a pensar em Mozart) suportam a mediocridade sem se matarem. Eu sou uma forma híbrida; tenho um pacto com a terra e já não posso mais.
Aquela flauta no "Requiem" de Mozart não nos dá uma ideia de Deus, mas da nossa escalada (infinita) para, enfim, deparar com a sua ausência.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Michael Gettel

Ligações
Simply Red, Paul Simon, David Sylvian

Textos:
Sebastião Alba

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012