Sons da Escrita 062

13 de Maio de 2006

Segundo programa do ciclo Sebastião Alba

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Sebastião Alba

A poesia não é só o domínio da língua (Sebastião Alba)

A poesia não é só o domínio da língua, até porque ela é indomável. Mas a ternura pelos fracos: as crianças, as mulheres, os velhos já senis. E os pobres animais bravios. Às vezes acordo, às 4 da manhã, a pensar em pardais nos ramos, com o bico sob a asa, fustigados pela chuva, à espera de que o sol raie. Quando o vento sopra em rajadas, como baterá o coraçãozinho deles? Já os tenho visto caídos, mortos. (...)
Súbdito só de quem não reina, aqui louvo os animais. Há, entre mim e eles, uma funda relação de videntes (...).


Free as a bird (Beatles) 

Free as a bird,
it's the next best thing to be.
Free as a bird. 

Home, home and dry,
like a homing bird I'll fly
as a bird on wings. 

Whatever happened to
the life that we once knew?
Can we really live without each other? 

Where did we lose the touch
that seemed to mean so much?
It always made me feel so... 

Free as a bird,
like the next best thing to be.
Free as a bird. 

Home, home and dry,
like a homing bird I'll fly
as a bird on wings. 

Whatever happened to
the life that we once knew?
Always made me feel so free. 

Free as a bird.
It's the next best thing to be.
Free as a bird.
Free as a bird.
Free as a bird.


Sebastião Alba

Pastoral (Sebastião Alba)

Seus novíssimos guardadores de rebanhos, vocês, a mim, não me tangem.
Eu nunca me esquecerei dos pastores que vi na infância, a quem o crepúsculo punha no contorno uma linha de sombra e, tantas vezes surdos-mudos, guardavam no vislumbre de cada olhar a ovelha que reconduziam à pedrada e amavam. Vocês, a mim, não.
Não obstante a tua atenção começar a desprender-se das sobras destes filhos da puta, não te esqueças de que elas, ainda compactas, estão em marcha.
Se caíres entre os cães, lambe-te e ajuda-te a morrer, meu doce lobo.
Isto parece um poema? Ainda não é. Poderia dar-lhe outro timbre. Mas a poesia e eu estamos de costas voltadas, só quando nos entreolhamos, algumas palavras fluem.


You lie down with dogs (Alan Parsons Project)

You're such a cool woman but I love you
Such a cruel woman but I love you
Open up your eyes and realise
You're such a fool woman but I love you
But you give me all that you've got to give
Cause it sure feels good to me

I'm not your only man I'm just your lover
Not your only man just another
Open up your eyes and realise
I'm gonna take what I can like any other
Cause it don't mean a thing to me

Well
You lie down with dogs you fall in with thieves
You're gonna catch something but you do as you please
You're scratchin' an itch that nothing can ease
You lie down with dogs you get up with fleas

Get out and find yourself another lover
Why don't you find yourself another lover
Open up your eyen and realise
You don't mean nothing to me I'm not your mother
You gave me all that you had to give
But there's a whole lotta fish in the sea

Well
You lie down with dogs you fall in with thieves
You're gonna catch something but you do as you please
You're scratchin' an itch that nothing can ease
You lie down with dogs you get up with fleas


Sebastião Alba

Abordage (Sebastião Alba)

Faço hoje 55 anos. Quem disse que o tesouro dos poetas são "montes de papéis desarrumados / e barras de oiro quando o sol se põe"?
Eu não aspiro a tanto, mas tenho alguns bens: sapatos novos, calças de ganga, uma camisa de flanela e um relógio de pulso.
Depois de 50 anos de chatice, que tal?
A Poesia foi, para mim, corso: de quando em vez, fazia abordagens. Claro que trago comigo, como qualquer pirata que se preza, o mapa desse tesouro, onde ninguém o encontrará: na pala do olho direito — com o esquerdo, não sei porquê, vi sempre melhor.


20 aniversario… palabras (Patxi Andión)

20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros
No te he dicho grandes cosas
porque no me habrian salido
ya sabes cosas de viejos
requemor de no haber sido.
Hace tiempo que intentamos
abonar nuestro detino
tu bajabas la persiana
yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy en esta noche fria
casi como ignorando el sabor
del la soledad compartida
quise hacerte una cancion
para cantar despacito
como se duerme a los niños
y ya ves,solo palabras
sobre notas me han salido
que al igual que tu y que yo
ni se importan ni se estorban
se soportan amistosas.
mas no son una cancion
que helada esta casa !
sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando,estan llegando...
los frios.
20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros



(...) Porque não sei o que pensar de mim, se vocês me desprezarem, sentir-me-ei desprezível; se me estimarem, estimável. Sou quem os que amo (ou detesto) pensam de mim. Pouco mais.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Air

Ligações
Beatles, Alan Parsons Project, Patxi Andión

Textos:
Sebastião Alba

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012