Sons da Escrita 288

23 de Julho de 2010

Primeiro programa do ciclo Sebastião da Gama

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Sebastião da Gama

Pequeno poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


Beautiful boy (John Lennon)

Close your eyes
Have no fear
The monster's gone
He's on the run and your daddy's here 

Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy 

Before you go to sleep
Say a little prayer
Every day in every way
It's getting better and better 

Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy 

Out on the ocean sailing away
I can hardly wait
To see you come of age
But I guess we'll both just have to be patient
'Cause it's a long way to go
A hard row to hoe
Yes it's a long way to go
But in the meantime 

Before you cross the street
Take my hand
Life is what happens to you
While you're busy making other plans 

Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy 

Before you go to sleep
Say a little prayer
Every day in every way
It's getting better and better 

Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy

Darling, darling, darling
Darling Sean


Sebastião da Gama

Nasci p’ra ser ignorante

Nasci p'ra ser ignorante
Mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.
 
Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.
 
Perdi o nome às Estrelas,
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.
 
Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.
 
Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.
 
Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.
 
No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.
 
O pior é se um director
espreita p'la fechadura:
lá se vai licenciatura
se ouve as lições do doutor.
 
Lá se vai o ordenado
de tuta e meia por mês,
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.
 
Se me não lograr o fado,
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado.
 
Enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.


Everybody knows (Leonard Cohen)

Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows that the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
That's how it goes
Everybody knows

Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows

Everybody knows that you love me baby
Everybody knows that you really do
Everybody knows that you've been faithful
Ah give or take a night or two
Everybody knows you've been discreet
But there were so many people you just had to meet
Without your clothes
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
That's how it goes
Everybody knows

Everybody knows, everybody knows
That's how it goes
Everybody knows

And everybody knows that it's now or never
Everybody knows that it's me or you
And everybody knows that you live forever
Ah when you've done a line or two
Everybody knows the deal is rotten
Old Black Joe's still pickin' cotton
For your ribbons and bows
And everybody knows

And everybody knows that the Plague is coming
Everybody knows that it's moving fast
Everybody knows that the naked man and woman
Are just a shining artifact of the past
Everybody knows the scene is dead
But there's gonna be a meter on your bed
That will disclose
What everybody knows

And everybody knows that you're in trouble
Everybody knows what you've been through
From the bloody cross on top of Calvary
To the beach of Malibu
Everybody knows it's coming apart
Take one last look at this Sacred Heart
Before it blows
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
That's how it goes
Everybody knows

Oh everybody knows, everybody knows
That's how it goes
Everybody knows

Everybody knows


Sebastião da Gama

O menino grande

Também eu, também eu.
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos...
 
Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi:
ficou-me,
dos tempos de menino
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.
 
Vida!,
não me venhas roubar o meu tesoiro:
não te importes que eu ria,
que eu salte como dantes.
E se eu riscar os muros
ou quebrar algum vidro
ralha, ralha comigo, mas de manso...
 
(Eu tinha um bibe azul...
Tinha berlindes,
tinha bolas, cavalos, papagaios...
A minha Mãe ralhava assim como quem beija...
E quantas vezes eu, só pra ouvi-la
ralhar, parti os vidros da janela
e desenhei bonecos na parede...)
 
Vida!, ralha também,
ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,
como se fosse ainda a minha Mãe...


When I was a boy (Joey Molland)

Never thought it would come to this
'Bye without a kiss
Never thought I could be so cold
Liberace was out of style
Children were running wild, taking over
White rabbits and voodoo child

I thought we made the journey
Last a million years
Seen the world a-turnin'
Grinding up the gears

Once in a million years
A comet flies by Venus
That's all we have between us

Peter Rabbit and gurus, and Lulus
And you lose everything

I thought we made the turning
Walked a crooked mile
Seen the world a-turnin'
Busted up inside

When I was a boy
Everything was brighter
When I was a boy
Everything was tighter
Everything was brighter
Everything was lighter

Oooh


So we made the journey
Walked a crooked mile
Saw the world a-turnin'
Busted up inside

When I was a boy
Everything was brighter
When I was a boy
Everything was tighter
Everything was lighter
Everything was brighter

Oooh

Everything was lighter
Everything was tighter
Everything was brighter

Oooh



A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:
 
"Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta..."
 
Vês como é simples e linda?
 
(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois).


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
John Sposito, Kevin Kerr, Patrick O’Hearn

Ligações
John Lennon, Leonard Cohen, Joey Molland

Textos:
Sebastião da Gama

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012