Sons da Escrita 145

7 de Dezembro de 2007

Primeiro programa do ciclo Sophia de Mello Breyner Andresen

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Sophia de Mello Breyner

O escultor e a tarde (Sofia de Mello Breyner)

No meio da tarde
Um homem caminha:
Tudo em suas mãos
Se multiplica e brilha.

O tempo onde ele mora
É completo e denso
Semelhante ao fruto
Interiormente aceso.

No meio da tarde
O escultor caminha:
Por trás de uma porta
Que se abre sozinha
O destino espera.

E depois a porta
Se fecha gemendo
Sobre a Primavera.


Your song (Elton John) 

It's a little bit funny this feeling inside
I'm not one of those who can easily hide
I don't have much money but boy if I did
I'd buy a big house where we both could live

If I was a sculptor, but then again, no
Or a man who makes potions in a travelling show
I know it's not much but it's the best I can do
My gift is my song and this one's for you

And you can tell everybody this is your song
It may be quite simple but now that it's done
I hope you don't mind
I hope you don't mind that I put down in words
How wonderful life is while you're in the world

I sat on the roof and kicked off the moss
Well a few of the verses well they've got me quite cross
But the sun's been quite kind while I wrote this song
It's for people like you that keep it turned on

So excuse me forgetting but these things I do
You see I've forgotten if they're green or they're blue
Anyway the thing is what I really mean
Yours are the sweetest eyes I've ever seen

And you can tell everybody this is your song
It may be quite simple but now that it's done
I hope you don't mind
I hope you don't mind that I put down in words
How wonderful life is while you're in the world

I hope you don't mind
I hope you don't mind that I put down in words
How wonderful life is while you're in the world


Sophia de Mello Breyner

A solidão (Sofia de Mello Breyner)

A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro

A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro.

A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noita acende
As suas luzes

Roxas verdes azuis.

Eu te procuro.


La solitudine (Laura Pausini)

marco se n'è andato e non ritorna più
e il treno delle 7:30 senza lui
è un cuore di metallo senza l'anima
nel freddo del mattino grigio di città
a scuola il banco è vuoto, marco è dentro me
è dolce il suo respiro fra i pensiere miei
distanze enormi sembrano dividerci
ma il cuore batte forte dentro me

chissà se tu mi penserai
se con i tuoi non parli mai
se ti nascondi come me
sfuggi gli sguardi e te ne stai
rinchiuso in camera e non vuoi mangiare
stringi forte a te il cuscino
piangi e non lo sai quanto altro male ti farà la solitudine

marco nel mio diario ho una fotografia
hai gli occhi di bambino un poco timido
la stringo forte al cuore e sento che ci sei
fra i compiti d'inglese e matematica
tuo padre e i suoi consigli che monotonia
lui con el suo lavoro ti ha portato via
di certo il tuo parere non l'ha chiesto mai
ha detto "un giorno tu mi capirai"

chissà se tu mi penserai
se con gli amici parlerai
per non soffrire più per me
ma non è facile lo sai
a scuola non ne posso più
e i pomeriggi senza te
studiare è inutile tutte le idee si affollano su te
non è possibile dividere la vita di noi due
ti prego aspettami amore mio...
ma illuderti non so!
la solitudine fra noi
questo silenzio dentro me
è l'inquietudine di vivere la vita senza te
ti prego aspettami perché
non posso stare senza te
non è possibile dividere la storia di noi due


Sophia de Mello Breyner

Aparição (Sofia de Mello Breyner)

Devagar devagar um homem morre
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula

Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata

Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata

Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua


E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata

Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.


Romaria (Elis Regina)

É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido
Em pensamentos
Sobre o meu cavalo...
É de laço e de nó
De jibeira o jiló
Dessa vida
Cumprida a só..
Sou caipira, pirapora, Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida...(2x)
O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos
Perderam-se na vida
À custa de aventuras...
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte
Eu não sei, nunca vi...
Sou caipira, Pirapora, Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida...(2x)
Me disseram, porém
Que eu viesse aqui
Prá pedir de
Romaria e prece
Paz nos desaventos...
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar
Meu olhar...
Sou caipira, Pirapora, Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida...(2x)
Sou caipira, Pirapora, Nossa
Senhora de Aparecida...



Assim termina a lenda
Daquele escultor:
Nem pedra nem planta
Nem jardim nem flor
Foram seu modelo


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Night Noise, Oytein Sevåg, Sebastian Argol

Ligações
Elton John, Laura Pausini, Elis Regina

Textos:
Sophia de Mello Breyner

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012