Sons da Escrita 146

14 de Julho de 2007

Segundo programa do ciclo Sophia de Mello Breyner Andresen

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Sophia de Mello Breyner

Apolo Musageta (Sofia de Mello Breyner)

Eras o primeiro dia inteiro e puro
Banhando os horizontes de louvor.

Eras o espírito a falar em cada linha
Eras a madrugada em flor
Entre a brisa marinha.
Eras uma vela bebendo o vento dos espaços
Eras o gesto luminoso de dois braços
Abertos sem limite.
Eras a pureza e a força do mar
Eras o conhecimento pelo amor.

Sonho e presença
De uma vida florindo
Possuída e suspensa.

Eras a medida suprema, o cânon eterno
Erguido puro, perfeito e harmonioso
No coração da vida e para além da vida
No coração dos ritmos secretos.


Beleza pura (Caetano Veloso) 

Não me amarra dinheiro não! / Mas formosura
Dinheiro não! / A pele escura
Dinheiro não! / A carne dura / Dinheiro não!...

Moça prêta do Curuzu / Beleza Pura!
Federação / Beleza Pura!
Bôca do rio / Beleza Pura! / Dinheiro não!...

Quando essa prêta / Começa a tratar do cabelo
É de se olhar / Toda trama da trança
Transa do cabelo / Conchas do mar
Ela manda buscar / Prá botar no cabelo
Toda minúcia, toda delícia...

Não me amarra dinheiro não!
Mas elegância...

Não me amarra dinheiro não! / Mas a cultura
Dinheiro não! / A pele escura
Dinheiro não! / A carne dura / Dinheiro não!...

Moço lindo do Badauê / Beleza Pura!
Do Ilê-Aiê / Beleza Pura!
Dinheiro hié! / Beleza Pura! / Dinheiro não!...

Dentro daquele turbante / Do filho de Gândhi
É o que há / Tudo é chique demais
Tudo é muito elegante / Manda botar!
Fina palha da costa / E que tudo se trance
Todos os búzios / Todos os ócios...

Não me amarra dinheiro não!
Mas os mistérios...

Não me amarra dinheiro não! / Beleza Pura!
Dinheiro não! / Beleza Pura!
Dinheiro não! / Beleza Pura! / Dinheiro Hié!

Beleza Pura!
Ah! Ah! Ah! Ah!


Sophia de Mello Breyner

Dionysos (Sofia de Mello Breyner)

Entre as árvores escuras e caladas
O céu vermelho arde,
E nascido da secreta cor da tarde
Dionysos passa na poeira das estradas.

A abundância dos frutos de Setembro
Habita a sua face e cada membro
Tem essa perfeição vermelha e plena,
Essa glória ardente e serena
Que distinguia os deuses dos mortais.


God bless the absentee (Paul Simon)

Lord, I'm a working man
And music is my trade
I'm travelin' with this five-piece band
And I play the ace of spades
I have a wife and family
Who don't see much of me
God bless the absentee

Lord, I am a surgeon
And music is my knife
It cuts away my sorrow
And purifies my life
But if I could release my heart
And veins and arteries
I'd say God bless the absentee

I miss my woman so
I miss my bed
I miss those soft places
I used to lay my head

My son don't need me yet
His bones are soft
He flies a silver airplane
He wears a golden cross
God bless the absentee

Lord, this country's changed so fast
The future is the present
The present's in the past
Highways are in litigation
The airports disagree
God bless the absentee
God bless the absentee


Sophia de Mello Breyner

Catilina (Sofia de Mello Breyner)

Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a verdade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu – coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.


I wish I felt nothing (Wallflowers)

Say when you're alone
It's better 'cause nobody knows you
When no one's your friend
It's better 'cause nobody leaves you
So you turned your back
On a world that you could never have
'Cause your heart's been cracked
And everyone else's is goin' mad

Chorus:
But I hear voices
And I see colors
But I wish I felt nothing
Then it might be easy for me
Like it is for you

Now all of these people
Come up from deep holes
Pullin' you down
And it's just no use
When all the abuse follows you down
By the morning you've gone
Leavin' me here all alone
Sayin' it's no mystery
I know that nobody here needs me

(chorus)

And I know you believe that you and me don't belong here
And the worst we could do
Is keep trying to pretend we care



A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão

Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis Papathanasious, Celtas Cortos

Ligações
Caetano Veloso, Paul Simon, Wallflowers

Textos:
Sophia de Mello Breyner

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012