Sons da Escrita 177

20 de Junho de 2008

Primeiro programa do ciclo Sylvia Plath

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Sylvia Plath

Canção da manhã (Sylvia Plath)

O amor acertou o teu passo como um pesado relógio de ouro.
A parteira deu-te duas palmadas nos pés e o teu grito nu
tomou o seu lugar entre os elementos.

As nossas vozes em eco engrandecem a tua chegada. Estátua
nova.
Na corrente de ar de um museu, a tua nudez
encobre a nossa segurança. Rodeamos-te inexpressivos como
paredes.

Sou tanto tua mãe como
a nuvem que em espelho se destila e nele vai reflectir o seu
lento
apagamento às mãos do vento.

Toda a noite a tua respiração de borboleta
paira entre o cor-de-rosa murcho das rosas. Acordo e oiço:
move-se no meu ouvido um mar distante.

Um choro e saio da cama aos tropeções, vaca gorda e florida
na minha camisa de noite vitoriana.
A tua boca abre-se limpa como a de um gato. O quadrado da
janela.

Empalidece e engole as estrelas sombrias. E tu agora ensaias
a tua
mão cheia de notas;
claríssimas vogais elevando-se como balões.


Free as the morning sun (Carlos Santana)

Don’t expect and you won’t be disappointed
And don’t judge
Offer your love

Don’t make promises to the world
Keep them to yourself
You’ll be better off

Hey! I know what I’m talking about
I know what I’m talking about

Don’t complain
Go out and do it yourself
Later on, you’ll be better off

Don’t look back, especially if it’s painful
Turn within, you’re going to find delight

Free as the morning sun
Free as the morning sun
Free as the morning sun


Sylvia Plath

Carta em Novembro (Sylvia Plath)

Amor, o mundo
de repente muda, muda de cor. A luz da rua
perpassa por entre as vagens do laburno
que lembram as caudas dos ratos, às nove da manhã.
É o Árctico.

Este pequeno círculo
negro, com estas trigueiras e sedosas ervas - cabelo de bebé.
Há uma cor verde no ar,
suave, voluptuosa.
Conforta-me com amor.

Estou corada e quente.
Se calhar isto é absurdo,
sou tão estupidamente feliz,
as minhas galochas
dão passos ruidosos, atravessam o vermelho maravilhoso.

É a minha propriedade.
Duas vezes ao dia
percorro-a, cheirando-lhe
o bárbaro azevinho em conchas
de verdete, ferro puro,

e a parede de velhos cadáveres.
Amo-os.
Amo-os como à história,
as maçãs são douradas,
imagine-se -

As minhas setenta árvores
a prender as suas bagas vermelho-douradas
num espesso e mortal caldo cinzento,
com um milhão
de folhas de metal douradas e sem vida.

Ó amor, Ó celibato.
Mais ninguém senão eu
caminha com água pela cintura.
As insubstituíveis
riquezas sangram e afundam-se, as bocas das Termópilas.


November rain (Guns 'n Roses)

When I look into your eyes
I can see a love restrained
But darlin' when I hold you
Don't you know I feel the same
'Cause nothin' lasts forever
And we both know hearts can change
And it's hard to hold a candle
In the cold November rain
We've been through this
Such a long long time
Just tryin' to kill the pain
But lovers always come
And lovers always go
And no one's really sure
Who's lettin' go today
Walking away
If we could take the time
To lay it on the line
I could rest my head
Just knowin' that you were mine
All mine
So if you want to love me
Then darlin' don't refrain
Or I'll just end up walkin'
In the cold November rain
Do you need some time On your own
Do you need some time All alone
I know it's hard to keep an open heart
When even friends seem out to harm you
But if you could heal a broken heart
Wouldn't time be out to charm you
Sometimes I need some time On my own
Sometimes I need some time All alone
Everybody needs some time  On their own
Don't you know you need some time All alone
And when your fears subside
And shadows still remain
I know that you can love me
When there's no one left to blame
So never mind the darkness
We still can find a way
'Cause nothin' lasts forever
Even cold November rain
Don't ya think that you  Need somebody
Don't ya think that you Need someone
Everybody needs somebody
You're not the only one


Sylvia Plath

Ovelhas na névoa (Sylvia Plath)

As colinas penetram na brancura.
Homens ou estrelas
olham-me com tristeza, desiludo-os.

O comboio deixa um rastro do seu alento.
Oh vagaroso
cavalo da cor da ferrugem,

Cascos, dolorosos sinos…
Toda a manhã
a manhã obscureceu

uma flor abandonada.
Os meus ossos absorvem a quietude, longínquos
campos enternecem o meu coração.

Ameaçam
levar-me para um céu
sem estrelas e sem pai: uma água negra.


Fogo líquido (Gilberto Gil)

O fogo tem
A mania de queimar
O que é bom e o ruim
Meu fogo vem
Do meu modo de esfregar
Todas as partes de mim 

Seja paixão
Seja o que você quiser
Meu fogo existencial
É a combustão
Da razão do meu viver
Na chama do irracional 

O coração
Fisca o fósforo do ardor
E a dor se inflama voraz
Consumição
Numa fogueira de amor
De gralhos secos da paz 

Bem mais pra lá
Do distante azul do céu
Na escuridão total
Se encontrará
Meu destino junto ao seu
Nas mãos de Deus, afinal



Uma agitação nos espelhos,
o mar despedaça o mar cinzento -

Amor, amor, o meu tempo.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Philip Glass

Ligações
Carlos Santana, Guns ‘n Roses, Gilberto Gil

Textos:
Sylvia Plath

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012