Sons da Escrita 178

27 de Junho de 2008

Segundo programa do ciclo Sylvia Plath

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Sylvia Plath

As tulipas (excertos) (Sylvia Plath)

As túlipas são demasiado sensíveis; é Inverno aqui.
Vê como tudo está branco, silencioso e calmo.
Deitada, isolada e calma vou apreendendo a quietude
enquanto a luz incide naquelas paredes brancas, nesta cama, nestas mãos.
Não sou ninguém; nada tenho a ver com sobressaltos.
Entreguei o meu nome, as minhas roupas de sair às enfermeiras,
a minha história ao anestesista e o meu corpo ao cirurgiões. (…)

Não queria flores, apenas queria
estar prostrada com as palmas das mãos para cima e ficar toda vazia.
Como se sinto livre sem que ninguém faça ideia da libertação…
A paz é tão intensa que nos entorpece
e nada exige em troca, uma etiqueta com o nome, algumas bugigangas.
Aquilo a que finalmente os mortos se agarram: imagino-os
introduzindo-as na boca, como se fosse hóstias.

Mais do que tudo o vermelho intenso das túlipas fere-me.
Mesmo através do papel de celofane as ouvia respirar
suavemente, por entre as suas faixas brancas, como um bebé medonho.
A minha ferida corresponde à sua cor rubra.
São subtis: parecem pairar, embora me esmaguem,
perturbando-me com as suas línguas súbitas e a sua cor,
uma dúzia de vermelhos pesos de chumbo em volta do meu corpo.

Nunca alguém me vigiara, vigiam-me agora.
As túlipas voltam-se para mim, assim com a janela
donde, uma vez por dia, a luz se espraia e esvai lentamente,
e vejo-me, estendida, ridícula, uma sombra de papel recortado
entre o olhar do sol e o olhar das túlipas,
e, sem rosto, quis apagar-me.
As túlipas plenas de vida comem-me o oxigénio.

Antes de elas virem todo o ar era calmo,
entrando e saindo, sopro a sopro, sem alvoroço.
Então as túlipas encheram-no com um forte ruído.
O ar agora embate nelas e redemoinha como um rio
embate e redemoinha num engenho imerso e vermelho de ferrugem.
Chamam a minha atenção, que era feliz
quando se entretinha e descansava despreocupadamente.

Também as paredes parecem animar-se.
As túlipas deviam estar atrás de grades como animais perigosos;
abrem-se como a boca de um animal africano,
e é ao meu coração que estou atenta: ele abre e fecha
o seu vaso de florescências vermelhas pelo puro amor que me tem.
A água que saboreio é quente e salgada como o mar,
e vem de país tão longínquo como a saúde.


Wildflower (Skylark)

She's faced the hardest times you could imagine
And many times her eyes fought back the tears
And when her youthful world was about to fall in
Each time her slender shoulders bore the weight of all her fears
And a sorrow no one hears
Still rings in midnight silence in her ears

Let her cry for she's a lady
Let her dream for she's a child
Let the rain fall down upon her
She's a free and gentle flower
Growing wild

And if by chance I should hold her
Let me hold her for a time
But if allowed just one possession
I would pick her from the garden to be mine

Be careful how you touch her for she'll awaken
And sleep's the only freedom that she knows
And when you walk into her eyes you won't believe
The way she's always payin' for a debt she never owes
And a silent wind still blows
That only she can hear and so, she goes

Let her cry for she's a lady
Let her dream for she's a child
Let the rain fall down upon her
She's a free and gentle flower
Growing wild

Let her cry for she's a lady
Let her dream for she's a child
Let the rain fall down upon her
She's a free and gentle flower
Growing wild

She's a flower
Growing wild

She's free.......


Sylvia Plath

Papoilas em Julho (Sylvia Plath)

Pequenas papoilas, pequenas chamas infernais,
sois inofensivas?

Estremeceis Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos por entre as chamas. Mas nada queima.

E fico exausta quando vos vejo
estremecer assim, pregueadas e rubras como a pele da boca.

Uma boca há pouco ensanguentada.
Pequenas orlas de sangue!

Há nela um fumo que não consigo tocar.
Onde está o vosso ópio, as vossas cápsulas nauseabundas?

Se eu pudesse esvair-se em sangue ou dormir!...
Se a minha boca conseguisse desposar uma tal ferida!

Ou os vossos licores me penetrassem, nesta cápsula de vidro,
trazendo-me a acalmia e o silêncio.

Mas sem cor. Sem nenhuma cor.


Sweet July (Rick Wright)

(instrumental)


Sylvia Plath

Papoilas em Outubro (Sylvia Plath)

Esta manhã nem mesmo as nuvens entre o sol podem pôr estas saias.
Nem a mulher na ambulância
de coração vermelho a florescer assombrosamente através do casaco -

Uma oferenda, uma oferenda de amor
jamais pedida
nenhum céu

esmaiado e em chamas
pondo a trabalhar o seu monóxido de carbono, nenhuns olhos
estáticos, em sentido sob chapéus de coco.

Ó meu deus, o que sou eu
possam as últimas bocas gritar alto
numa floresta de gelo, num amanhecer de centáureas.


Flower duet (Charlotte Church)

Sous le dôme épais où le blanc jasmin
A la rose s'assemble
Sur la rive en fleurs riant au matin

Doucement glissons De son flot charmant
Suivons le courant fuyant
Dans l'onde frémissante
D'une main nonchalante
Viens, gagnons le bord,
Où la source dort et
L'oiseau, l'oiseau chante.

Sous le dôme épais ou le blanc jasmin,
Ah! descendons
Ensemble!

Sous le dôme épais où le blanc jasmin
A la rose s'assemble
Sur la rive en fleurs riant au matin
Viens, descendons ensemble

Doucement glissons de son flot charmant,
Suivons le courant fuyant
Dans l'onde frémissante
D'une main nonchalante
Viens, gagnons le bord
Où la source dort et
L'oiseau, l'oiseau chante.

Sous le dôme épais ou le blanc jasmin,
Ah! descendons
Ensemble!



A lua não tem nada que estar triste,
pasmada lá do seu capucho de osso.

Está acostumada a este tipo de coisas.
As suas manchas negras explodem e passam devagar.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis Papathanasious

Ligações
Skylark, Rick Wright, Carlotte Church

Textos:
Sylvia Plath

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012