Sons da Escrita 179

4 de Agosto de 2008

Terceiro programa do ciclo Sylvia Plath

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Too much rain (Paul McCartney)

Laugh when your eyes are burning
Smile when your heart is filled with pain
Sigh as you brush away your sorrow
Make a vow that it's not gonna happen again

It's not right in one life too much rain

You know the wheels keep turning
Why do the tears run down your face?
We used to hide away our feelings
But for now tell yourself it won't happen again

It's not right in one life too much rain

It's too much for anyone
Too hard for anyone
Who wants a happy and peaceful life
You've gotta learn to laugh

Smile when you're spinning round and round
Sigh as you think about tomorrow
Make a vow that your gonna be happy again

It's all right in your life no more rain

It's too much for anyone
Too hard for anyone
Who wants a happy and peaceful life
You've gotta learn to laugh


Sylvia Plath

A gralha negra em tempo de chuva (Sylvia Plath)

Lá no alto, num ramo firme
arqueia-se uma gralha negra toda molhada
arranjando e voltando a arranjar as penas à chuva.
Não espero qualquer milagre
nem nada

que venha lançar fogo à paisagem
no interior dos meus olhos, nem procuro
mais no tempo inconstante qualquer desígnio,
mas deixo as folhas manchadas cair conforme caem,
sem cerimónia ou maravilha.

Embora - admito-o - deseje
ocasionalmente alguma resposta
do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:
uma certa luz pode ainda
surgir incandescente

da mesa da cozinha ou da caldeira
como se um fogo celestial tornasse
seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,
assim consagrando um intervalo
de outro modo inconsequente

por nos dar grandeza e glória,
ou até amor. De qualquer modo, caminho agora
atenta (pois isso poderia acontecer
mesmo nesta paisagem triste e arruinada); descrente,
mas astuta, ignorante

de que um anjo se decida a resplandecer
repentinamente a meu lado. Apenas sei que uma gralha
ordenando as suas penas negras pode brilhar
de tal maneira que prenda a minha atenção, erga
as minhas pálpebras, e conceda

um breve repouso com medo
de uma neutralidade total. Com sorte,
viajando teimosamente por esta estação
de fadiga, acabarei
por juntar um conjunto

de coisas. Os milagres acontecem
se gostares de invocar aqueles espasmódicos
gestos de luminosos milagres. A espera recomeçou de novo,
a longa espera pelo anjo,
por essa rara, fortuita visita.


Prayin' for a miracle (Asia)

I've been flat out of luck
Spent my very last buck
Can't sink no lower than this
I'm so broken inside
Had to spit out my pride
This ain't no way to exist
Every place that I go
Everyone that I meet
Sees me like I'm some dog in the street
And it's bringin' me down to my knees

Now I'm prayin', prayin'
Prayin' for a miracle
I'm prayin', prayin'
Prayin' for a miracle
Prayin' for a miracle

Since I left you that night
Less than nothing's gone right
Living this hell that I made
So I'm back at your feet
I'm admitting defeat
Girl, I never felt so afraid
Just give back my life
I admit my mistakes
Now I'm willing to do whatever it takes
I'm begging you now, can't you see

That I'm prayin', prayin'
Prayin' for a miracle
Prayin', prayin'
Prayin' for a miracle
Prayin' for a miracle

Don't walk away
'Cause I know I'm still worth savin'
Can you forgive the way
I turned my back on you
And I'm prayin', prayin'
Prayin' for a miracle
Prayin', prayin'
Prayin' for a miracle ...


Sylvia Plath

Lorelei (Sylvia Plath)

Não existe nenhuma noite para nos afogarmos:
lua cheia, um rio correndo
negro sob um suave reflexo de espelho,

névoas azuis da água gotejando
de malha para malha como redes de pesca
embora os pescadores durmam,

torres sólidas do castelo
multiplicando-se num espelho
todo ele silêncio. Mas estas formas flutuam

em minha direcção, perturbando o rosto
da quietude. Do nadir
erguem os seus membros plenos

de opulência, cabelos mais pesados
que o mármore esculpido. Cantam
um mundo mais cheio e límpido

do que aquele que existe. Irmãs, a vossa canção
traz uma carga demasiado pesada
para ser escutada pelas espirais do ouvido,

aqui, num país onde um sensato
senhor governa equilibradamente.
Ao serem perturbadas pela harmonia

que existe além da ordem deste mundo,
as vossas vozes fazem um cerco. Estais alojadas
nos recifes em declive do pesadelo,

prometendo um abrigo certo;
de dia, estendem-se para além dos limites
da inércia, das saliências

que existem também nas altas janelas. Pior
ainda que esta canção de enlouquecer
é o vosso silêncio. Na origem

do apelo do vosso coração gelado
- a embriaguez das grandes profundezas.
Ó rio, como vejo serem arrastadas

lá no fundo do teu curso de prata,
aquelas grandes deusas da paz.
Pedra, pedra, leva-me lá para baixo.


The woman and the stone (Andreas Vollenweider)

(instrumental)


Sylvia Plath

Palavras (Sylvia Plath)

Machados,
depois do seu golpe a madeira ressoa,
e os ecos!
Ecos que partem
do centro, semelhantes a cavalos.

A seiva
jorra como lágrimas, como
água capaz de lutar
para refazer o seu espelho
sobre uma rocha

que cai e se transforma
uma branca caveira
consumida pelas ervas daninhas.
Anos depois
encontro-as na estrada…

Palavras secas e sem cavaleiro,
infatigável ruído de cascos.
Enquanto
do mais fundo do lago as imóveis estrelas
regem a vida.


Words (Christians)

If i could find words
To tell you i'm sorry
Make you understand
I mean just what i say
After all that i've heard
Why should i worry
When we ride the fine line
Between love and hate

If i had been wise
well how could i doubt you
now i'm all alone
my life in disarray
but try as i might
i can't live without you
so i cling to the hope
of a bright brighter day

oh i know we've been through this all before
how can i prove my love for you is real
no i can't do anymore
if i could only find words

and still he has dreams
and still i must learn to cope
absurd as it seems
i still have hope

if i had good sense
and heed all the warnings
i would let it be
and leave all well alone
but there's no recompense
for waking up mornings
feeling sure it's myself
who's the foolish one

yes i know we've been through this all before
how can i prove my love for you is real
no i can't do anymore
if i could only find words



As noites fecharam-se de repente como a pálpebra de um lagarto:
um mundo de dias brancos e monótonos, numa cova sem sombra.

Um aborrecimento de abutre pregou-me aqui a esta árvore.
Se ele fosse eu, faria o que eu fiz.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden

Ligações
Paul McCartney, Asia, Andreas Vollenweider, Christians

Textos: Sylvia Plath

Textos:
Sylvia Plath

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012