Sons da Escrita 391

21 de Abril de 2012

Terceiro programa do ciclo T. S. Eliot

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

do livro The Waste Land

Que raízes se prendem, que ramos crescem
Neste entulho pedregoso? Filho do homem,
Não consegues dizer, nem adivinhar, pois conheces apenas
Um montão de imagens quebradas, onde bate o sol,
E a árvore morta não dá qualquer abrigo, nem o grilo alívio,
Nem a pedra seca qualquer ruído de água. Apenas
Há sombra debaixo desta rocha vermelha
(Anda, vem para a sombra desta rocha vermelha),
E vou mostrar-te uma coisa ao mesmo tempo diferente
Da tua sombra quando ao amanhecer te segue
E da tua sombra quando ao entardecer te enfrenta;
Vou mostra-te o medo num punhado de poeira.
«Deste-me Jacintos há um ano pela primeira vez;
Diziam que eu era a rapariga dos jacintos.»
- Porém quando viemos, já tarde, do jardim dos jacintos,
O teu braçado cheio e o teu cabelo molhado, não consegui
Falar, os meus olhos toldaram-se, eu não estava
Vivo nem morto e não conhecia nada,
Os olhos postos no coração da luz, o silêncio.


Long as I can see the light (Credence Clearwater Revival)

Put a candle in the window, but I feel I've got to move.
Though I'm going, going, I'll be coming home soon,
'Long as I can see the light.

Pack my bag and let's get movin', 'cause I'm bound to drift a while.
Well I'm gone, gone, you don't have to worry no,
'Long as I can see the light.

Guess I've got that old trav'lin' bone,
'cause this feelin' won't leave me alone.
But I won't, won't be losin' my way, no, no
'Long as I can see the light.

Yeah! Yeah! Yeah! Oh, Yeah!

Put a candle in the window, 'cause I feel I've got to move.
Though I'm going, going, I'll be coming home soon,
Long as I can see the light.
Long as I can see the light.
Long as I can see the light.
Long as I can see the light.
Long as I can see the light.


do livro The Waste Land

À hora violeta, quando os olhos e as costas
Se elevam da secretária, quando a máquina humana aguarda
Como um táxi latejante à espera,
Eu Tirésias, embora cego, latejante entre duas vidas,
Um velho com seios mirrados de mulher, consigo ver
À hora violeta, a hora do entardecer que se arrasta cansada
De caminho para casa, e traz o marinheiro de regresso ao mar,
A dactilógrafa em casa à hora do chá, levanta o pequeno-almoço, acende
O fogão, e põe na mesa comida de conserva.
Perigosamente estendidas por fora da janela,
Secam as combinações, que o sol toca com os derradeiros raios,
Em monte de divã (à noite a cama dela)
Meias, chinelos, corpetes e espartilhos.
Eu Tirésias, um velho de tetas mirradas
Entendi a cena e antecipei o resto –
Também eu aguardava o visitante previsto.
Ele chega, o jovem carbuncular, um funcionário
Numa modesta agência predial, de feição atrevida,
Um pobre diabo em quem assenta o brio
Como em ricaço de Bradford cartola de seda.


Poor boy (Supertramp)

Can you believe me when I say
There's nothin' I'd like better
Than just to sit here and talk with you?
Although I'll rant and I'll rave
About one thing and another,
The beauty of it is (hope you'll agree)
Though I'm a poor boy,
I can still be happy,
As long as I can feel free.
So many people I know gettin' old way too early
(Well, are you feelin' kind of weary?)
Just to impress you with the money they've made.
(You'd better, you'd better, you'd better change your theory.)
One drop of rain they complain
And it's the same about the wage they're earnin'.
Well that is not the way I'm gonna be.
Don't mind the rain
Don't mind snow
Don't mind nothin'
If I know
You will be right here with me.
Well let us state our only point of view
Why can't we all afford to live like you?
This simple life is simply not enough
We have appearances we must keep up.

Poor boy,
If that's the way it's gotta be (Poor boy)
It's you for you and me for me.

I try all I can understanding all the fools
And all their money
When half of what they got
You know they never will use.
Enough to get by suits me fine;
I don't care if they think I'm funny,
I'm never gonna change my point of view.
Don't mind the rain
Don't mind snow
Don't mind nothin'
If I know
You will be right here with me
Always – na, na, na
Don't mind the rain
Don't mind snow
Don't mind nothin'
If I know
You will be right here with me.


do livro The Waste Land

Após o rubor do archote no suor dos rostos
Após o silêncio gelado nos jardins
Após a agonia em terras pedregosas
Os brados e os gritos
Da prisão e do palácio e da ressonância
Do trovão primaveril em montanhas distantes
Ele que era vivo agora está morto
Nós que éramos vivos agora vamos morrendo
Com alguma paciência.

Não há água aqui mas apenas pedras
Só pedras sem água e a estrada arenosa
Serpeante no alto por entre as montanhas
Que são montanhas de pedras e sem água
Se houvesse água íamos parar e beber
Não se pode entre as pedras parar ou pensar
O suor seco e os pés na areia
Se ao menos houvesse água entre as pedras (…).


Water of love (Dire Straits)

High and dry in the long hot day
Lost and lonely in every way
Got the flats all around me sky up above
I need a little water of love
I've been too long lonely and my heart feels pain
Crying out for some soothing rain
I believe I have taken enough
I need a little water of love
Water of love deep in the ground
No water here to be found
Some day baby when the river runs free
It'll carry that water of love to me
There's a bird up in a tree sitting up high
Waiting for me to die
If I don't get some water soon
I'll be dead and gone in the afternoon
Once I had a woman I could call my own
Once I had a woman now my woman is gone
Once there was a river now there's a stone
You know it's evil when you're living alone


Sentei-me na margem
A pescar, com o plaino árido atrás de mim
Hei-de eu ao menos pôr ordem nas minhas terras?
London Bridge está a cair está a cair está a cair.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Russ Hopkins & Jerry Palmer

Ligações
Credence Clearwater Revival, Supertramp, Dire Straits

Textos:
T. S. Eliot

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012