Sons da Escrita 264

12 de Fevereiro de 2010

Primeiro programa do ciclo Teresa Cunha

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Teresa Cunha

Introdução (Teresa Cunha)

Até prova em contrário parece que só se vive uma vez, daí ser tentador rever, reavaliar e revalidar os nossos passos antes de findo o caminho, e se tivermos muita sorte, se o balanço for positivo, há situações e pessoas especiais que nunca esqueceremos pelas melhores razões possíveis. Esta é uma lista, incompleta decerto, mas cheia de memórias boas e personalidades raras que enriqueceram a minha passagem por tempos já usados e que continuarão a enfeitar os dias que estiverem por vir.
É assim que eu lembro o que vivi e como vivi, nem tudo será bom e a minha visão pessoal dos factos está prenhe de considerações opinadas e menos diplomáticas do que deveriam ser, mas é o que é. Não sei se a vida de qualquer um de nós terá significado de maior, custa-me a crer, mas enquanto os outros se lembrarem de que por cá passámos nós herdaremos decerto umas poucas horas da tão cobiçada imortalidade, cuja busca, mais do que a do vil metal, move o mundo desde sempre. Este é o meu modesto contributo para todos aqueles que percorreram os meus afectos, que alteraram os meus caminhos, que privilegiaram a minha vida, e para mim, que fiz esse trajecto comigo. Aos personagens obscuros que decerto não deveriam ser lembrados, eu relembro na mesma, revejo-os com gosto porque são poucos e dão testemunho do erro que é essencial ao acerto, existem apenas na excepção que confirma a regra duma existência predominantemente feliz.
Podia escrever um texto sério e cheio de considerações filosóficas ou políticas, mas isso seria trabalho e não é para isso que aqui venho. Escolho celebrar quase em exclusivo as pérolas, o que houve de melhor, tudo aquilo que me fez rir, me aclarou os dias e me alegrou os passos. Como é típico em mim lembro mais facilmente as insignificâncias e o insólito do que os aspectos mais sérios e importantes de tudo o que me aconteceu, no entanto o trivial arrasta consigo frequentemente o mais profundo e significativo do que a vida tem para dar. Conto divertir-me muito na reconstrução de todo um processo evolutivo e desafiador que me trouxe até aonde eu estou em muito boa companhia.
O meu pai proclamava que a família não se escolhe mas os amigos sim, dão-nos a oportunidade de provarmos que somos pessoas de discernimento e bom gosto, há ainda afortunadas circunstâncias em que ambas as categorias se permeiam de forma a facilitar-nos a vida, portanto, aqui vai à vossa, " .. aos presentes e aos ausentes", se a memória não me falhar.


How sweet it is (to be loved by you) (James Taylor)

How sweet it is to be loved by you
How sweet it is to be loved by you

I needed the shelter of someone's arms, there you were
I needed someone to understand my ups and downs, there you were
With sweet love and devotion
Deeply touching my emotion
I want to stop and thank you baby
I want to stop and thank you baby (yes I do)

How sweet it is to be loved by you (feel so fine)
How sweet it is to be loved by you

I close my eyes at night
Wondering where would I be without you in my life
Everything I did was just a bore
Everywhere I went it seems I'd been there before
But you brighten up for me all of my days
With a love so sweet in so many ways
I want to stop and thank you baby
I just want to stop and thank you baby (woah, yeah)

How sweet it is to be loved by you (it's just like sugar sometimes)
How sweet it is to be loved by you

(Woah, yeah)

You were better to me than I was to myself
For me, there's you and there ain't nobody else
I want to stop and thank you baby
I just want to stop and thank you baby (woah, yes)

How sweet it is to be loved by you
How sweet it is to be loved by you (woah, now)
How sweet it is to be loved by you (it's like jelly, baby, woah now)
How sweet it is to be loved by you (just like honey to the bee babe, yeah now)
How sweet it is to be loved by you
How sweet it is to be loved by you


Teresa Cunha

Quem sai aos seus -1 (Teresa Cunha)

Eu nasci da contradição, sou a soma dos extremos que se tocam e o produto dos opostos que se atraem, toda a minha formação se estruturou no improvável e os meus pais que foram quem ocasionou esse feliz acaso foram também mais do que progenitores, foram karma, óleo e água, uma mescla insolúvel e contradizente.
Há tempos, por sugestão dum ex-namorado fui consultar um astrólogo "fidedigno" (a avaliar pelo preço). Levei uma cassete e ele gravou a consulta para minha referência futura, na altura detestei mas ouvindo posteriormente tudo aquilo encontrei algumas pérolas… é a minha tendência natural, procurar sempre a pérola e pelo sim pelo não deliciar-me entretanto com a ostra. Dizia ele então que quando nascemos já trazemos uma carga específica, porque nascemos em circunstâncias particulares, daquele pai e daquela mãe, naquele enquadramento social e astrológico, etc. No fundo, esta pareceu-me também uma aproximação algo kármica e o peso desta carga é, sem dúvida, inquestionável.
Ora eu nasci de contrários, e embora nós sejamos sempre iguais a todas as partes que nos compõem e absorvamos ainda um pouco de tudo o resto, eu claramente e como todas as crianças, muito cedo estabeleci o meu padrão de comportamento segundo o modelo que me parecia mais viável, neste caso o do meu pai (que fazia o que bem entendia), desenvolvendo assim o meu lado masculino enquanto o feminino que me era imposto foi aprendido relutantemente por não me parecer fácil nem conducente à felicidade ou sucesso, como diz o meu amigo Zé, "… vocês é que mandam, mas nós só fazemos o que queremos!", ora aí está. Entretanto estas coisas têm tendência a piorar de modo que acresceu a isto o facto de eu não vir a ter quaisquer exemplos relevantes do bom entendimento entre os sexos, da existência do amor romântico, da santidade do matrimónio e da viabilidade dos relacionamentos, vem daí com certeza a minha incapacidade para imaginar sequer que o amor seja uma coisa fiável. É decerto por isso também que o domínio do sentimental me fascina tão profundamente como me fascina o oculto, o paranormal, o sobrenatural e tudo aquilo que transcenda a minha compreensão e o domínio cómodo e lógico do que é racional. A mim, o amor sempre me pareceu um flagelo desmesurado, basta ver nos livros a carrada de desgraças a que esta persistente tragédia tem levado, é um estado precário, de natureza temporária, que não preconiza nada de bom e serve essencialmente para estupidificar e enfraquecer quem se deixa levar na balela. Esta visão não é com certeza saudável por mais verdadeira ou prática que seja e eu sinto-me lesada, tenho inveja das românticas.


Something so right (Paul Simon)

You've got the cool water
When the fever runs high
You've got the look of lovelight in your eyes
And I was in crazy motion
'til you calmed me down
It took a little time
But you calmed me down

When something goes wrong
I'm the first to admit it
I'm the first to admit it
And the last one to know

when something goes right
Well it's likely to lose me, mm
It's apt to confuse me
It's such an unusual sight
Oh, I can't, I can't get used to something so right
Something so right

They've got a wall in China
It's a thousand miles long
To keep out the foreigners they made it strong
And I've got a wall around me
That you can't even see
It took a little time
To get next to me

When something goes wrong
I'm the first to admit it
I'm the first to admit it
And the last one to know
when something goes right
Well it's likely to lose me, mm
It's apt to confuse me
because it's such an unusual sight
Oh, I swear, I can't get used to something so right
Something so right

Some people never say the words "I love you"
It's not their style
to be so bold
Some people never say those words "I love you"
But like a child they're longing to be told, mm

When something goes wrong
I'm the first to admit it
I'm the first to admit it
And the last one to know
when something goes right
Well it's likely to lose me, mm
It's apt to confuse me
because it's such an unusual sight
I swear, I can't, I can't get used to something so right
Something so right

hmmmmm, ooohhhhh,
Something so right


Teresa Cunha

Quem sai aos seus -2 (Teresa Cunha)

Sempre me deslumbrou a infinidade de coisas impensáveis que através dos tempos a humanidade foi aprendendo, inventando e introduzindo no seu dia a dia por tentativa e erro. Quem terá sido o primeiro maluco a olhar para uma planta como as outras e a achar que seria absolutamente delicioso secar-lhe as folhas, enrolá-las, deitar-lhes fogo e inalar-lhes o fumo; quem é que pensou torrar o primeiro grão de café, moê-lo e enfiar aquela mistela em água quente para retirar depois o líquido escuro e amargo com que nos deliciamos hoje?… enfim, uma imaginação fértil pode ser uma cruz e deve ter morrido muito desgraçado nesta luta ancestral para dominar os elementos e nós podermos hoje beneficiar com confiança, até dos mais simples prazeres e vícios. Da mesma forma a sabedoria popular sempre me pareceu uma inesgotável fonte de pérolas e sempre me deliciei algo indiscriminadamente com todo e qualquer ditado popular, começando pelo velho "… a voz do povo é a voz de Deus!" ... Deus, eu não sei se há, mas o povo existe, anda por aí, … e tem quase sempre razão.
Apesar das minhas resistências a tudo o que é imposto ou herdado, a gente não escapa às raízes e eu sou uma relutante mas confessa vítima delas, talvez por isso sempre achasse inquietante que um conceito tão pivotal à nossa cultura como o de predestinação ou fado, seja o conceito de saudade, até inventámos uma palavra que alegadamente mais nenhuma língua se deu ao trabalho de engendrar, um termo orgulhosamente português para definir a emoção dolorosa de sentir falta de algo ou alguém persistentemente. Portanto sim, eu sou envergonhada mas necessariamente nostálgica, e em consequência disso tenho tendência a analisar as coisas em retrospectiva, … o que deverá vir a ser-me útil aqui.
Isto tudo para dizer que, tanto quanto me parece, só assim posso justificar de alguma forma ser como sou e não se pense que cheguei aqui por dá cá aquela palha, esta alminha deu muito trabalho a construir e nasceu dum longo e moroso processo de selecção e interiorização de toda a sorte de disparates e lições profundas de vida, … em suma, "quem sai aos seus não degenera", ou alternativamente "não é de Genebra ", mas se for como eu passa por lá bastas vezes, e pronto, a minha desculpa é só essa,… e frequentemente preciso de uma.


Time in a bottle (Jim Croce)

If I could save time in a bottle
The first thing that I'd like to do
Is to save every day
Till Eternity passes away
Just to spend them with you

If I could make days last forever
If words could make wishes come true
I'd save every day like a treasure and then,
Again, I would spend them with you

But there never seems to be enough time
To do the things you want to do
Once you find them
I've looked around enough to know
That you're the one I want to go
Through time with

If I had a box just for wishes
And dreams that had never come true
The box would be empty
Except for the memory
Of how they were answered by you

But there never seems to be enough time
To do the things you want to do
Once you find them
I've looked around enough to know
That you're the one I want to go
Through time with


…eu não mudaria nada na minha vida, sou o somatório dela e não me reconheceria noutro formato, no entanto nem sempre estou de acordo comigo, nem sempre tenho paciência para mim e nem sempre me entendo, como toda a gente, pergunto-me por vezes se as minhas escolhas foram ou são as melhores. Acho que já dei trabalho demais a uma mão cheia de Anjos da Guarda…


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Lito Vitale

Ligações
James Taylor, Paul Simon, Jim Croce

Textos:
Teresa Cunha

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012