Sons da Escrita 265

19 de Fevereiro de 2010

Segundo programa do ciclo Teresa Cunha

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Teresa Cunha

A génese do fado (Teresa Cunha)

A progenitora com o seu pragmatismo proporcionava-nos muita aprendizagem, sempre foi uma verdadeira arma anti-cagança e fazia coisas por vezes pouco vulgares e algo inovadoras. A Zulmira viu-me nascer e apegou-se a mim de tal forma que insistia em levar-me diariamente "no embrulho", embrulhava-me num xaile e carregava-me religiosamente consigo fosse onde fosse, a minha paixão por pregões, feiras e mercados deve vir daí assim como a súplica com que a progenitora goza até hoje "ó Zumbilha leva-me no embulho!" agonizando para ser enganada, embrulhada/levada com alguma urgência e tão amiúde quanto possível. Acho que foi caso de maternidade partilhada por estas duas fêmeas que me criaram a meias nos primeiros tempos, e quando a Zulmira casou lá de casa, pediu à minha mãe para me levar com ela por uns dias para se habituar à separação e ir matando a saudade que estava por vir … a minha mãe, armada em Salomão, assentiu, e lá fui eu no embrulho passar uns dias com a Zumbilha e o seu novo marido que não deve ter achado graça nenhuma a gramar o rebento alheio na sua tão ansiada lua-de-mel. Claro que a Zulmira era irmã da Natália que era caseira da minha avó e na terra do falecido as pessoas conheciam-se bem, a confiança era muita, os laços conferiam antigos e somavam muita amizade, claramente a minha mãe não via razão de todo para questionar essa memória tão velha e foi logo cedendo a cria de bom grado … ou alternativamente estava deserta por se ver livre de mim! A minha querida Zumbilha morreu recentemente de súbito mas apenas semanas antes de partir, como se adivinhasse, mandou-me uma foto que o meu pai lhe dera de nós as duas entre as dunas duma praia qualquer da minha infância, lá estamos nós à beira da água, a rir, testemunho da doçura que ainda me embrulha, nas coisas e nos outros, apesar de mim … foi a sua prenda de despedida, para eu não esquecer.
Quem me deu muito colo também foi a Mirita, (filha da Júlia Cesteira, ama-de-leite do meu pai), que tomou conta de mim por uns tempos. Tão loira, linda, doce e delicada de maneiras como a própria mãe, ela tinha por hábito embalar-me no colo e chamar-me a sua roseirinha, a minha poética progenitora derretia-se com isso porque como diz o ditado, "quem meus filhos beija minha boca adoça", … e eu nunca esqueci, afinal de contas foi essa a minha primeira alcunha. Até hoje os olhos da Mirita ficam rasos de água sempre que me vê, (à boa maneira portuguesa), ainda me chama a sua roseirinha mas admite agora que os espinhos da sua doce e perfumada flor já são aparentes, e eu concordo, hoje já sou mais do espinho do que da rosa, e afio-me ainda sempre que posso… mas mesmo assim são estas almas generosas que me lembram sempre de que eu já fui inofensiva e doce em tempos.


Caruso (Luciano Pavarotti)

Qui dove il mare luccica,
e tira forte il vento
sulla vecchia terrazza
davanti al golfo di Surriento
uno uomo abbracia una ragazza
dopo che aveva pianto
poi si schiarisce la voce,
e ricomincia il canto

Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai...

Vide le luci in mezzo al mare,
penso alle notti là in America
ma erano solo le lampare
e la bianca scia di un'elica
senti il dolore nella musica,
e si alzo dal pianoforte
ma quando vide uscire
la luna da una nuvola,
gli sembro piu dolce anche la morte
guardò negli occhi la ragazza,
quegli occhi verdi come il mare
poi all'improvviso usci una lacrima
e lui credette di affogare

Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai

Potenza della lirica,
dove ogni dramma è un falso
che con un po' di trucco e con la mimica
puoi diventare un altro
ma due occhi che ti guardano,
cosi vicine e veri
ti fan scordare le parole,...
Confondono i pensieri
cosi diventa tutto piccolo,
anche le notti là in America
ti volti e vedi la tua vita,
dietro la scia di un'elica
ma si, è la vita che finisce,
e non ci penso poi tanto
anzi, si sentiva gia felice,
e ricomincio il suo canto

Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai


Teresa Cunha

Malawi, the warm heart of Africa! - 1 (Teresa Cunha)

O Barnabas Barnabas, (era mesmo esse o nome), que encabeçava o departamento de administração era da Tanzânia. Era um Dinka de cabeça rapada, absolutamente descomunal tanto em altura como em volume, com uma barriga protuberante e passo compassado e lento que vestia invariavelmente os tradicionais fatos “safari” e se fazia acompanhar religiosamente por uma raquete de ténis. Como prova irrefutável da sua proveniência tribal exibia no permanente sorriso escancarado o tradicional espaço entre os dentes da frente.
Tinha a melhor, mais grave e mais sonante gargalhada do mundo e em dias de menor azáfama ligava para a minha extensão telefónica e exigia autoritário que eu fosse à sua sala entretê-lo com a minhas anedotas portuguesas. Quem entrasse no edifício e não me encontrasse tinha apenas de seguir o trovejar de gargalhadas que quase deitavam a casa abaixo. As “portuguese jokes” tornaram-se tão essenciais ao bom funcionamento do escritório como as incontáveis taças de café diárias e eu tornei-me numa tradutora exímia, desconfio de que mais à conta delas do que propriamente dos documentos oficiais que traduzia a toda a hora. Quem é que ia imaginar que a nossa tradição portuguesa de contar anedotas por tudo e por nada me viria a dar tanto jeito?..afinal de contas humor também é cultura! A preferida do BB, (muito resumida), era a da galinha portuguesa (a nacionalidade da galinha foi bónus meu é claro), que, ao contrário das demais, depois de lhe passar um cilindro de compactagem de estradas por cima, quando todos a davam por morta se levanta, sacode as penas e murmura deliciada “..hum, ..que galo!”…é fôfinha.
Toda a gente sabe que Coca-Cola quente e galinha frita é o prato mais vulgar em África, a cola bebe-se pela garrafa e o óleo a ferver mata as bactérias de modo que quando íamos de missão e tínhamos de comer à beira da estrada a escolha era fácil mas o BB insistia sempre em olhar para o menu e dizer ao perplexo empregado “Meu caro amigo, para mim é a galinha, ..mas só se for portuguesa!”.
Ainda a propósito de galinha frita à beira da estrada, os nossos orçamentos requeriam relatórios detalhados por parte dos parceiros que financiávamos e que davam sempre uma trabalheira a monitorar, uma vez que vínhamos exaustos de uma reunião dessas com as autoridades locais, ainda atordoados com tanto cálculo e número, parámos esfomeados num “restaurante” e como de costume só havia galinha frita, a variedade restringia-se à quantidade, uma, meia, ou um quarto de galinha? ..todos pedimos um quarto de galinha e éramos cinco. Quando vieram os pratos a dose do Bornwell era visivelmente menor do que as nossas, ele olha desconsolado para o prato e diz “bom, parece-me que fiquei com o quinto quarto da galinha!”. O Bornwell, querido amigo, era um staff nacional, hoje internacional, religiosíssimo e duma integridade inquestionável, com quem tive muitas discussões acesas acerca da existência de Deus que parecia andar distraído do que por ali se passava… Com os anos cheguei à conclusão que talvez seja verdade que Deus escuta sempre as nossas preces, ..só que às vezes a resposta é não!


Red, red wine (UB 40)

Red, red wine
Goes to my head
Makes me forget that I
Still need her so 

Red, red wine
It`s up to you
All I can do I`ve done
memories won`t go
memories won`t go 

I just thought that with time
Thoughts of you would leave my head
I was wrong, now I find
Just one thing makes me forget 

Red, red wine
Stay close to me
Don`t let me be in love
It`s tearin` apart
My blue, blue heart


Teresa Cunha

Malawi, the warm heart of Africa! - 2 (Teresa Cunha)

O Abdi, que se tomou num grande amigo e cuja deliciosa mulher era tão animada quanto eu, ria-se facilmente e sucumbia sempre às nossas tácticas mirabolantes para o arrancarmos à monotonia e darmos uns passitos de dança o mais frequentemente possível. Chamava-me a sua segunda mulher e quando um dia de visita a Blantyre eu demorava mais do que o costume a invadir o seu escritório, ele que já ouvira a minha voz e o habitual sarrabulho pelos corredores assomava à porta e berrava "que raio de esposa és tu que me fazes esperar pelo meu entretenimento?". Durante a guerra na Somália o Abdi perdeu contacto com a mãe e as duas filhas pequenas que deixara no país de origem, durante mais de um ano partilhámos com ele a angústia de não saber se estavam mortas ou vivas, até que finalmente para alívio geral foram encontradas "sãs e salvas" e vieram juntar-se aos pais no Malawi.
O trabalho dele nunca sofreu nem os colegas foram alvo de irritabilidade ou impaciência, era um exemplo de coragem e sobriedade para todos nós. Num Natal em que a minha mãe veio visitar-me resolvemos fazer um jantar na minha casa em que reunimos todos aqueles que não celebrassem a data e/ou estivessem sozinhos, foi uma ocasião que ela nunca esqueceu com uma longa mesa enfeitada de gente de credos, cores e realidades diferentes em que as belas filhas do Abdi sem perceberem inglês e recém-chegadas ao país se deliciaram com a confusão geral enquanto os pais traduziam o que podiam da festa animada. Dançou-se freneticamente ao som de todas as versões rock jamais feitas do ''jingle bells" e outras canções natalícias, esqueceram-se as mágoas e trocaram-se histórias entre garfadas de bacalhau com natas, bolo rei e rabanadas ... a ocasião inesquecível foi tão pirosa quão encantadora!
Num mundo equívoco em que o racismo e a intolerância tendem a ser tomados como invenção exclusiva do ocidente branco, o que não é verdade, eu tenho por vezes alguma dificuldade em pensar de forma culturalmente sensível e politicamente correcta, não tenho paciência. Tenho uma compreensível resistência a filosofias que promovam a desigualdade e a culturas que objectifiquem as mulheres seja sob que pretexto for. Critico a minha e reservo-me o direito de fazer o mesmo com as outras onde as ache em falta, embora tente não ferir susceptibilidades, se possível. Acho que a igualdade requer sempre um contraponto de receptividade, se do outro lado as intenções divergirem, vamos ficar perpetuamente iguais a nós próprios.
Lembro-me de ficar surpresa a princípio com certas diferenças culturais quando por exemplo uma amiga que tinha um namorado muçulmano, me contou que entre outras peculiaridades, após o orgasmo este saltava da cama, virava-se para Meca e agradecia a Alá… pessoalmente sempre achei que o mentecapto seria mais justo se agradecesse à pobre que trabalhara árdua e ingloriamente nesse sentido.


Crazy, cruel, beautiful world (Johnny Clegg & Savuka)

You got to wash with the crocodile in the river
You got to swim with the sharks in the sea
You got to live with the crooked politician
Trush those things that you can never see
Ayeye ayeye jesse mfana (jesse boy) ayeye ayeye

You got to trust your lover when you go away,
Keep on believeing tomorrow brings a better day.
Sometimes you smile while you'r cryin' inside,
Just once you'll turn away while the truth be shinin' bright.
Ayeye ayeye jesse mfana ayeye ayeye

It's a cruel crazy beautiful world
Every (day first and third chorus)(time second Chorus) you wake up I hope it's under a blue sky.
It's a cruel crazy beautiful world
One day when you wake up I will have to say goodbye
Say goodbye -- It's your world so live in it! Goodbye (first-third chorus only). It's your world so live in it!

Beyond the door, strange cruel beautiful years are waiting for you
It kills me to know you won't escape loneliness,
Maybe you lose hope too
Ayeye ayeye jesse mfana ayeye ayeye

When I hold your small body close to mine
I feel weak and strong at the same time
So few years to give you wings to fly
Show you stars to guide your ship by

It's your world so live in it


— Então, o soninho foi descansado?!
Ouve lá, nós dormimos juntos esta noite?
— Não, com muita pena minha, não, porquê?
— Ah bom! É que eu acho que me lembraria!…
Então, como ainda não me viste hoje, fazes favor, antes de mais, dás-me os bons-dias!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Modica

Ligações
Luciano Pavarotti, UB 40, Johnny Clegg & Savuka

Textos:
Teresa Cunha

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012