Sons da Escrita 266

26 de Fevereiro de 2010

Terceiro programa do ciclo Teresa Cunha

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Teresa Cunha

Saudações revolucionárias (Teresa Cunha)

Maputo era uma metropolis, uma capital mais agreste e vocífera do que a nossa em que os vestígios do passado e da riqueza do poder colonial eram evidentes. Apesar dos anos de guerra, do abandono e da destruição, a cidade falava bem da afluência e sofisticação que tivera. A miséria urbana era enorme e infinitamente mais opressiva e miserável do que a outra, a miséria que eu conhecera nos campos e no meio rural, onde as condições eram praticamente equitativas, onde a pobreza era quase só pobreza e tudo era mais básico identificável e simples. Os incontáveis meninos de rua lembravam o poema do fado, e assediavam-nos a cada passo como bandos de pardais à solta, "sinhora, tau a pidir!", dormindo ao abandono pelas esquinas da noite e brigando por cada migalha caída apenas para se fazerem alvo da perfídia dos mais velhos que atiravam por terra os franzinos para lhes levar a moeda conseguida a tanto custo.
A vida destas crianças que inundavam Maputo evocava os "Capitães da Areia" de Jorge Amado, e traçava definitivamente a triste história de meninos que já são homens e de homens que nunca foram meninos… sempre achei inacreditável que um escritor intemporal e sublime como ele nunca tivesse recebido um Nobel da literatura, inacreditável e profundamente injusto, mas isso agora não vem ao caso.
Em Moçambique aprendi muito, aprendi entre outras coisas que prefiro operações de guerra porque a percebo de alguma forma, há algumas normas, sei mais ou menos com o que contar, o que evitar etc. Logo após a guerra não há como prever nada, o caos acede ao seu lugar e podemos morrer agora ou depois, tanto faz, podemos levar um tiro à mesa ou no mato ou na cama, nada tem nada a ver com nada e não há previsões possíveis. Pode suceder como ao meu amigo Moisés no mediático caso do assalto ao restaurante Piri-Piri em Maputo em que várias pessoas morreram e ele judeu de gema, com o chofer morto ao seu lado confessava depois atónito, ter rezado "Ave Marias" incessantemente sempre na expectativa do próximo tiro o calar … quem sabe porque sobreviveu.
A guerra é razoavelmente regulamentada, reconhecem-se-lhe alguns princípios básicos que mal ou bem se seguem, será quase previsível se bem que nunca saudável, à semelhança do matrimónio. A ressaca da guerra é o crime que é invariavelmente bronco como a paixão, sem normas nem regras, é caótico, duro, e sobrevive-se a custo reconhecendo as perdas sofridas sem jamais conseguir ver exactamente aonde é que a coisa correu mal porque as variáveis são inúmeras e insondáveis.
Esta insegurança atenta contra o raciocínio, contra a lógica, contra o engenho básico que nos faz sobreviver e cansa profundamente quem por lá passe sóbrio, isso era mais do que evidente, devia vir daí a prevalência duma das mais perigosas combinações possíveis, álcool e armas. Pior combinação do que esta só estupidez e dinheiro, a estupidez é um flagelo e o dinheiro pode tudo… apre!


Os putos (Paulo de Carvalho)

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.
Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.
Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.
As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo
Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.
Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.


Teresa Cunha

This one won’t crack! - 1 (Teresa Cunha)

Dos meus "homens do sexo oposto", o Claes foi um pioneiro, falávamos de tudo, éramos brutalmente honestos um com o outro e só medíamos forças em cenários inofensivos, mais por gozo do que por vontade, propriamente dita, de dominar ou manipular. Um dos nossos passatempos favoritos depois de jantar, Verão ou Inverno, era sentarmo-nos contemplativos, com uma cerveja na varanda do castelo, a olhar o rio, as estrelas, a lua, e os morteiros que cruzassem a escuridão dos céus. Por vezes havia um espaço silencioso em que tudo ficava quieto e brando, como se fosse paz, e era nesses momentos que eu gostava de dizer ao Clássico, "… in this precise moment, just now, all is right with the world!", e era verdade, naquele preciso momento tudo estava bem com o mundo, e nós éramos muito felizes.
Das memórias mais queridas que guardo dele, de entre tantas, é a de infinitas horas passadas durante a noite, enrolados um no outro, no sofá decrépito da sua casa, de mãos dadas a ouvir a 5.ª sinfonia de Mahler no volume máximo, de forma a abafar os ruídos do mundo todo lá fora. É das peças mais bonitas que jamais foram compostas e decerto a mais triste, … como se Mahler inventasse ele próprio a tristeza, e nunca mais ninguém a soubesse expressar de forma tão profunda e evidente.


Elle Disait (Francis Cabrel)

Elle disait
J'ai déjà trop marché
Mon coeur est deja trop lourd de secrets
Trop lourd de peines

Elle disait
Je ne continue plus
Ce qui m'attend je l'ai deja vécu
C'est plus la peine

Elle disait
Que vivre était cruel
Elle ne croyait plus au soleil ni au silence des églises
Même mes sourires lui faisaient peur
C'était l'hiver dans le fond de son coeur.

Le vent n'a jamais été plus froid
La pluie plus violente que ce soir là
Le soir de ses 20ans

Le soir où elle a éteint le feu
Derrière la facade de ses yeux
Dans un éclair blanc

Elle a surement rejoint le ciel
Elle brille a coté du soleil
Commme les nouvelles églises M
ais si depuis ce soir là je pleure
C'est qu'il fait froid dans le fond de mon coeur


Teresa Cunha

This one won’t crack! - 2 (Teresa Cunha)

A determinada altura do processo de paz, um extenso território sérvio que tinha sido tomado pelas tropas croatas foi devolvido após as devidas negociações, era a zona que se designava genericamente por "Anvil" (Bigorna). Quando visitei a área pela primeira vez fiquei fascinada não só pelo grau de destruição mas pela sua sistematização e requinte, as tropas croatas ao saberem que iam desocupar aquele território tinham aberto todas as torneiras nas casas antes de partirem. Como estávamos no pino do inverno e a natureza tem de facto uma força imparável, a água escorreu infiltrando-se pela estrutura das mesmas e foi congelando gradualmente até rebentar com paredes, chão etc. A segurança dos edifícios estava completamente comprometida, era duma simplicidade extraordinária e maquiavélica. Noutra zona muito remota no alto dumas montanhas inóspitas de cuja existência já nem Deus se devia lembrar, os tipos tiveram a paciência de queimar toda e qualquer casa, abrigo ou celeiro existentes, a pedra mansa de que estes eram feitos desfizera-se por completo em poeira, era incrível, e é preciso perceber que a zona não foi ocupada pela população croata ou qualquer outra, apenas por soldados que tiveram a paciência de minar a zona toda e destruir com uma eficiência meticulosa tudo quanto pudesse facilitar o retomo da população original que era rural, pouco abastada e decerto; pelo menos até então, menos política ainda.
Foi aí, ao ver as condições básicas de vida daquela gente, a forma como cultivavam a terra, ainda puxando o arado com o próprio corpo ou com a ajuda de cavalos, alguns sem terem jamais tido acesso às modernidades que nós consideramos banais, que me dei conta de que provavelmente só uma ínfima percentagem da população mundial tem as mesmas referências que nós e alimenta expectativas similares, se for 10% é muito. A maioria continua a viver como se vivia há centenas de anos atrás, mais coisa menos coisa, e nós, com os nossos computadores, GPS’s, telemóveis e toda a sorte de traquitanas basicamente dispensáveis, continuamos a presumir saber mais sobre aquilo que lhes é devido ou adequado. Nestas situações de dizimação total é que se pode ver que no fundo todos precisamos de muito pouco para sobreviver, o que nós já não saberíamos decerto era sobreviver com tanta dignidade face a tão pouco. Quando eu exprimia estas minhas angústias em público o meu ilustrado viking justificava-me invariavelmente perante a audiência dizendo, "… never mind, … she's ovulating! " ... eu ovulava muito naqueles tempos.


La chanson des vieux amants (Alison Moyet)

Bien sûr nous eûmes des orages
Vingt ans d'amour c'est l'amour fol
Mille fois tu pris ton bagage
Mille fois je pris mon envol
Et chaque meuble se souvient
Dans cette chambre sans berceau
Des éclats des vieilles tempêtes
Plus rien ne ressemblait à rien
Tu avais perdu le goût de l'eau
Et moi celui de la conquête

Mais mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime

Moi je sais tous tes sortilèges
Tu sais tous mes envoûtements
Tu m'as gardé de piège en piège
Je t'ai perdue de temps en temps
Bien sûr tu pris quelques amants
Il fallait bien passer le temps
Il faut bien que le corps exulte
Finalement finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes

Ô mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime

Et plus le temps nous fait cortège
Et plus le temps nous fait tourment
Mais n'est-ce pas le pire piège
Que vivre en paix pour des amants
Bien sûr tu pleures un peu moins tôt
Je me déchire un peu plus tard
Nous protégeons moins nos mystères
On laisse moins faire le hasard
On se méfie du fil de l'eau
Mais c'est toujours la tendre la guerre

Ô mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime


Teresa Cunha

This one won’t crack! - 3 (Teresa Cunha)

No dia em que a Paz finalmente chegou e o Acordo de Dayton foi assinado, eu fiquei no escritório com o Claes e seguíamos na televisão pela BBC News (que era a mais fiável) todos os desenvolvimentos. Assim que as assinaturas terminaram eu passei-me de alegria, e sem sequer pensar no que estava a fazer peguei no meu hand-set e, tão decorosamente quanto possível fiz um comunicado geral a todos os colegas via rádio, anunciando que "as partes" tinham assinado, que a paz tinha chegado finalmente, parabéns a todos e que o futuro fosse próspero e produtivo pois ninguém merecia mais do que eles, desejei-lhes sinceramente que este fosse o primeiro de muitos dias felizes que estivessem por vir, .. e depois saí do ar. Do staff nacional todos andavam pelo terreno nos seus respectivos afazeres, já nenhum acreditava em noções românticas e iam esperar para ver como se habituaram a fazer ao longo de anos de conflito para evitar desilusões. A minha euforia deve tê-los desarmado, surpreendido ou tocado de alguma forma porque segundos depois começaram a chover mensagens, sempre em tom oficial e neutro, um a um cada staff nacional entrou no ar e agradeceu os meus votos, manifestou o seu agrado e desejou boa sorte ao processo de paz e a todos nós, nacionais e estrangeiros que tínhamos testemunhado os tempos difíceis e sobrevivido à guerra. Este imprevisto desfile de agradecimentos, cheio de alívio optimismo e esperança foi extraordinariamente comovente e apanhou-me de surpresa, sobretudo pela sua sobriedade e candura.
Por último veio a nossa pragmática e fria Valérija, com a descontracção de sempre ela entrou no ar e disse muito simplesmente num tom audivelmente comovido e pouco habitual " .. bravo foxtrot two, thank you for the good news, let's hope peace will endure and we all live to see it, .. and by the way mama, we love you! .. thanks, .. out" 1. Eu sabia que eles gostavam de mim, era recíproco, mas o inesperado e aquela maneira directa e "matter of fact" que ela teve de o expressar naquela hora desfez-me por completo e eu desabei pelo corredor fora a fugir para abafar as lágrimas na privacidade da casa de banho, porque eu choro muito pouco e não sei porquê chorar envergonha-me sempre muito. Quando saí o Claes estava calado encostado à porta para me dar um dos seus "bear hugs ", um abraço de urso, confortante, regenerador e apertado. Foi mais um momento genuinamente feliz que partilhámos naquele dia memorável, em que nós sabíamos, e nos foi dado a sentir tão generosamente por aquela gente, que fazíamos parte da história feita ali naquele preciso momento, .. e mais uma vez, " .. naquele momento preciso, tudo estava bem com o mundo, .. e nós éramos muito felizes…


That lonesome road (James Taylor)

Walk down that lonesome road all by yourself
Don't turn your head back over your shoulder
And only stop to rest yourself when the silver moon
Is shining high above the trees 

If I had stopped to listen once or twice
If I had closed my mouth and opened my eyes
If I had cooled my head and warmed my heart
I'd not be on this road tonight 

Carry on 

Never mind feeling sorry for yourself
It doesn't save you from your troubled mind 

Walk down that lonesome road all by yourself
Don't turn your head back over your shoulder
And only stop to rest yourself when the silver moon
Is shining high above the trees


“Dear Teresa,
let this golden coin of Empress Milica, widow of the Emperor Lazar, last Serb emperor who died in Kosovo defending his country, serve as a reminder of the place where your humanity, kindness and love helped heal the wounds.
Remember: you will always be in our hearts!… with love!”


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Hans Christian, Columbia University Orchestra, David Garrido, Rob Costlow

Ligações
Paulo de Carvalho, Francis Cabrel, Alison Moyet

Textos:
Teresa Cunha

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012