Sons da Escrita 267

6 de Março de 2010

Quarto programa do ciclo Teresa Cunha

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Teresa Cunha

O berço o dá, a tumba o leva! - 1 (Teresa Cunha)

As etapas da minha vida sempre me pareceram muito bem definidas e o meu sexto sentido diz-me que vem por aí outra muito em breve, espero que esta nova fase seja positiva e que os próximos degraus sejam sempre a subir. Quanto a alguns dos degraus vencidos mais recentemente estou convencida de que só me parecem descendentes porque ainda não tenho deles o distanciamento necessário para entender qual a sua função específica nessa didáctica escadaria que parece guiar a minha jornada existencial através do tempo e de todos os seus imprevistos mais ou menos agradáveis. Sei que crescemos através das dificuldades e que talvez seja assim que saldamos as nossas dívidas, .. sendo esse o caso, eu gostaria de pensar que já saldei grande parte das minhas.


Canção do mar (Dulce Pontes)

Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo

Vem saber se o mar terá razao
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar... contigo


Teresa Cunha

O berço o dá, a tumba o leva! - 2 (Teresa Cunha)

Ao cabo doutra década fui merecidamente promovida de Balzaquiana a Dondoca, divido-me pelas minhas casas, pelas minhas viagens, pelos meus afectos, pelas minhas artes, pelos meus voluntariados, pelas minhas traduções e vou-me dando tempo e espaço de pausa entre isso tudo. Como o ter nunca me deslumbrou, sou grata por tudo o que tive, por tudo o que construí, por tudo o que me esforcei para obter, por tudo o que ganhei sem esforço e pelo cumulativo do que tenho hoje, .. mantendo-me frugal em tudo como dantes. Passeio-me pelos dias tentando não me levar muito a sério, sei que preciso de ser mais hábil e tolerante a lidar com os meus erros e comigo mesma (coisa que ainda não aprendi), que devo reduzir a intensidade dos meus ímpetos e dos meus esforços e que tenho forçosamente de ir desfazendo os nós que dou nas teias que teço. Busco a paz e quietude interior do silencio da mente que ainda não consigo almejar, e tento encontrá-los à medida que avanço sabendo que vêm por aí com certeza assim que eu reinventar o meu ego, .. passando à direita da voluntariosa esquerda do meu cérebro, tentativamente, .. com a mesma sensação de deslumbre e descoberta, .. com que um dia descobri os homens.


Primeiro beijo (Rui Veloso)

Recebi o teu bilhete
para ir ter ao jardim
a tua caixa de segredos
queres abri-la para mim
e tu nao vais fraquejar
ninguem vai saber de nada
juro nao me vou gabar
a minha boca e sagrada
estar mesmo atras de ti
ver-te da minha carteira
sei de cor o teu cabelo
sei o shampoo a que cheira
ja nao como, ja nao durmo
e eu caia se te minto
havera gente informada
se e amor isto que eu sinto

Quero o meu primeiro beijo
nao quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais e o que nos une
que aquilo que nos separa

Promete la outro encontro
foi tao fogaz que nem deu
para ver como era o fogo
que a tua boca prometeu
pensava que a tua lingua
sabia a flor do jasmim
sabe a chicla de mentol
e eu gosto dela assim!

Quero o meu primeiro beijo
nao quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais e o que nos une
que aquilo que nos separa!


Teresa Cunha

O berço o dá, a tumba o leva! - 3 (Teresa Cunha)

Enquanto aguardo os frutos da minha jornada de melhoramento pessoal, por agora vou modestamente procurando escapes para ventilar saudavelmente os meus desassossegos, invento e gozo os prazeres em que embarco para me distrair, vou analisando os passos e tentando aprumar o rumo, and all things being equall, espero beneficiar dos anos, ser menos incauta, mais tranquila, gostar mais de quem me ama e ser mais bem amada por quem me queira (lapso freudiano), .. já tive a sorte de viver o grande amor da minha vida e de ser generosamente retribuída. Gostei do que fiz, gosto do que faço, reconheço quem sou mas temo não mudar, comprovadamente já vou tarde para aprender a lidar com pouco e aceitar menos do que aquilo que mereço.
Consolo-me com o que diz o Fernando, que é o Pessoa mais útil que já conheci, "… porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura". É exactamente assim, parece-me que em toda a minha vida eu só não vi o que não queria ver, e de resto já vi muito, muita alegria, muita beleza, muita grandeza, muita miséria, muita tristeza, muito de tudo, .. no fim não deve fazer grande diferença, somos exactamente quem somos façamos o que fizermos mas se não reincidirmos nos erros talvez possamos aprender a enfrentar quase todas as intempéries .. e conseguimos resistir a quase tudo.
Eu sobrevivi, continuo a fazer o que quero porque posso, até ver tenho saúde, amigos, amor, dinheiro suficiente e alguma sorte, porque aquela que eu já tive, essa já ninguém ma tira. Por enquanto trago a minha vida sob controlo em todos os aspectos excepto os sentimentais com que me vou entretendo,… quando me deixam. Mas nesse sector que serve essencialmente para condimentar o ócio, quebrar a monotonia e nos destrambelhar a todos, eu tenho vindo a redescobrir a mais instrumental das ferramentas feministas, a de ter autonomia suficiente para fazer exactamente o que me apeteça sem ter de me justificar, desculpar ou comprometer.

Depois de me ter revisto perante o tempo que já gastei devolvo-me à minha memória de mim mais inteira e quase certa, de que tudo o que sou e sei, me veio por tentativa e erro, ... e no que diz respeito a métodos de aprendizagem ainda agora não me ocorreria outro melhor.
Já dizia o Poeta que para contar a sua vida bastaria dizer que entre o primeiro e o último, todos os dias foram seus.. Ao retomar posse dos meus dias eu leio na prosa dos anos e nas entrelinhas da experiência revisitada, a letra simples dum fado que eu decerto mereci e cujo refrão insiste em levar-me precisamente de volta ao meu ponto de partida.
Talvez eu nunca venha a ser mais feliz do que já fui e nem sequer tenha mudado muito desde o dia em que trouxe aquilo com que nasci para a vida que se quis minha ... mas curiosamente é aí que eu encontro o meu maior conforto ...
.. e descubro até um enorme alívio cómico ..
. . ou quem sabe, kármico,
.. nessa ironia.


Over my shoulder (Mike & The Mechanics)

Looking back over my shoulder
I can see that look in your eyes
I never dreamed it could be over
I never wanted to say good bye

Looking back over my shoulder
With an aching deep in my heart
I wish we were starting over
Oh, instead of drifting apart

Everybody told me you were leaving
Funny I should be the last to know
Baby please tell me that I'm dreaming
I just never wat to let you go

Looking back over my shoulder
I can see that look in your eyes
Tearing my heart over and over
I never wanted to say goodbye

I don't mind everybody laughing
But it's enough to make a grown man cry
Cause I can feel it slipping through my fingers
I don't even know the reason why

Every day it's a losing battle
Just to smile and hold my head up high
Could it be that we belong together?
Baby, won't you give me one more try


Onde meu coração naufragar
Estarás tu,
De novo,
E um princípio,
E um fim,
Ainda,
…E luz,
E treva,
Concordarão de repente,
Vida minha,
Tu és minha hora tranquila,
Meu paraíso,
Minha pena,
…Tu és a minha casa,
O meu país,
…És tu.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
George Martin, Tangerine Dream

Ligações
Dulce Pontes, Rui Veloso, Mike & The Mechanics

Textos:
Teresa Cunha

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012