Sons da Escrita 351

16 de Julho de 2011

Primeiro programa do ciclo Vanda Baltazar

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VandaBaltazar

Como escrever o dia

Como escrever o dia
em que as casas
cresceram
para dentro do ventre da terra
e os homens declinaram
e os miúdos riram
e as mulheres se agarraram
aos pilares voláteis das chaminés
como quem procura
o chão?
 
Como descrever o movimento
contínuo
das árvores a vogarem
a terra com os braços em remo?
 
Como descrever o negativo interno
das ruas
o sustentável desequilibrio
das coisas e dos seres
de pernas para o ar
caídas de espanto
na vala paradoxal do tempo?
Como descrever
a noite que golpeou
o estado do dia
a dor
que perfurou
o corpo
o corpo que mergulhou na terra?
Como descrever o riso das crianças no uivo dos lobos?


Upside down (Jack Johnson)

Who's to say
What's impossible
Well they forgot
This world keeps spinning
And with each new day
I can feel a change in everything
And as the surface breaks reflections fade
But in some ways they remain the same
And as my mind begins to spread its wings
There's no stopping curiosity

I want to turn the whole thing upside down
I'll find the things they say just can't be found
I'll share this love I find with everyone
We'll sing and dance to Mother Nature's songs
I don't want this feeling to go away

Who's to say
I can't do everything
Well I can try
And as I roll along I begin to find
Things aren't always just what they seem

I want to turn the whole thing upside down
I'll find the things they say just can't be found
I'll share this love I find with everyone
We'll sing and dance to Mother Nature's songs
This world keeps spinning and there's no time to waste
Well it all keeps spinning spinning round and round and

Upside down
Who's to say what's impossible and can't be found
I don't want this feeling to go away

Please don't go away
Please don't go away
Please don't go away
Is this how it's supposed to be
Is this how it's supposed to be


VandaBaltazar

A luz a partir na quietude da sombra

A luz a partir na quietude da sombra.
a noite a cair na teia das paisagens que adivinhamos submersas
numa massa coesa
de ervas
ébrias
de cheiros.
nas
raízes alongadas
a beber
me
todos os rios.


sem
esquecer
os
detalhes
microscópicos
da seiva das azedas
dos gumes das pedras
das asas dos melros.
Seriam corvos?
o garrar
dos dedos
a todos os gestos.

lembrar
a inconsistência
das
flores secas
sem
separadores
de página
onde as
reescrever.

As palavras são memórias, nos caminhos rasgadas,
deixadas, ao abandono do solo e do vento.
repito-me no folego do espelho nos ramos nús:

Não houvesse tanta palavra
tanta raíz
tanta memória
e o mundo poderia nascer de novo


Moonlight shadow (Mike Oldfield)

The last that ever she saw him,
Carried away by a moonlight shadow.
He passed on worried and warning,
Carried away by a moonlight shadow.
Lost in a riddle that Saturday night,
Far away on the other side.
He was caught in the middle of a desperate fight
And she couldn't find how to push through.

The trees that whisper in the evening,
Carried away by a moonlight shadow.
Sing a song of sorrow and grieving,
Carried away by a moonlight shadow.
All she saw was a silhouette of a gun,
Far away on the other side.
He was shot six times by a man on the run
And she couldn't find how to push through.

I stay, I pray
See you in heaven far away.
I stay, I pray
See you in heaven one day.

Four a.m. in the morning,
Carried away by a moonlight shadow.
I watched your vision forming,
Carried away by a moonlight shadow.
Star was light in a silvery night,
Far away on the other side.
Will you come to talk to me this night,
But she couldn't find how to push through.

Far away on the other side.

Caught in the middle of a hundred and five.
The night was heavy and the air was alive,
But she couldn't find how to push through.

Carried away by a moonlight shadow.
Carried away by a moonlight shadow.
Far away on the other side.
But she couldn't find how to push through.


VandaBaltazar

Muitas vezes

Muitas vezes à rapariga tinha sido imposta a paragem.
Muitas vezes se tinha quedado muda em reflexões, cega às árvores que
dançavam para lá dos vidros enjanelados de luz, surda às vozes que a
convidavam a sair.
Muitas vezes, se tinha debatido a rapariga, no paradigma da
desconstrução da poesia que a movia, como se no dia em que a obra
estivesse completa, o puzzle lhe aparecesse como se de uma vida nova
se tratasse.
Como se a racionalização dos gestos lhe trouxesse respostas à velha
inquietação da alma, como se a inteligência despida da emoção no
momento das decisões, tomadas ou preteridas, lhe descobrisse uma nova
perspectiva de vida.
Propôs-se entre quatro paredes a analisar a natureza da pedra, a
perceber a (in)significância da carne, a desfiar lentamente os ângulos
agudos das palavras, como se da matéria do papel, fosse possível fazer
nascer um novo rio. A juzante de si mesma.
Equilibrou sinónimos na imperfeição das arestas que se não tocavam.
Construíu realidades a que não soube dar nome.
Contínuamente, peça a peça, desconstruíu o grande acto de vida, contido em si.
No chão, brincou com as pequenas marionetes que desenhou para se ver
reflectida em cada acto. Leal à memória, refez percursos e deu voz a
personagens de pano usado.
Acordou num cubo cinzento, estrangulada de silêncio.
Entre quatro paredes, percebeu, que a poesia que a tinha movido dia
após dia, não era puzzle que se desconstruísse, na realização de uma
ideia, que buscava perfeição.
A vida será sempre mais, ainda que na imperfeição do todo que a há-de consumir.
E de novo se reconstruíu.


If the stars were mine (Melody Gardot)

If the stars were mine
I'd give them all to you
I'd pluck them down right from the sky
And leave it only blue

I would never let the sun forget
To shine upon your face
So when others would have rain clouds
You'd have only sunny days

If the stars were mine
I'd tell you what I'd do
I'd put the stars right in a jar
And give 'em all to you

If the birds were mine
I'd tell them when to sing
I'd make them sing a sonnet
When your telephone would ring

I would put them there inside the square
Whenever you went out
So there'd always be sweet music
Whenever you walk about

If the birds were mine
I'd tell you what I'd do
I'd teach the birds such lovely words
And make 'em sing for you
I'd teach the birds such lovely words
And make 'em sing for you

If the world was mine
I'd paint it gold and green
I'd make the oceans orange
For a brilliant color scheme

I would color all the mountains
Make the sky forever blue
So the world would be a painting
And I'd live inside with you

If the world was mine
I'd tell you what I'd do
I'd wrap the world in ribbons
And then give it all to you

I'd teach the birds such lovely words
And make 'em sing for you
I'd put those stars right in a jar and
Give them all to you


Como entender não o vôo das aves, mas, nas árvores, o das folhas,
sem me entristecer?
Como descrever a breve interrupção entre o corpo e a raíz,
o breve intervalo, errático, da seiva?
de mim, em mim.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Govannen

Ligações
Jack Johnson, Mike Oldfield, Melody Gardot

Textos:
Vanda Baltazar

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012