Sons da Escrita 352

23 de Julho de 2011

Segundo programa do ciclo Vanda Baltazar

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VandaBaltazar

Como um acto fora de peça

Como um acto fora de peça, é o que é.
Ele estava deitado...
– ele, deitado?
Repito, ele estava deitado, numa breve pausa ao frenesim de que
parecia possuído há dias.
– não escrevas.
Escrevo, digo, deito fora, sei lá , respondeu ela.
Tinha os braços abertos, flectidos, e sob a cabeça cruzavam-se os dedos.
Tudo era bucólico, o azul do céu, os verdes, as pedras, o riacho...
Talvez por isso, sentiu que o seu corpo, tão demasiado corpo, não
cabia na paisagem.
– um corpo fora da moldura? não escrevas.
Fingiu não ouvir, não ouviu de todo; olhou para o tecto sem realmente
o ver e, com voz despida de emoção, soletrou: no céu voavam pequenas e
diáfanas nuvens de algodão.
(abanou as pernas como se a imobilidade das mesmas a estivesse a incomodar).
O chão pintado de verde pela mão da natureza e as pedras, brancas,
polidas pela neve recentemente derretida. Só o corpo dele, parecia não
caber no quadro.
– chocava?
Não era chocar, era como se aquele corpo de homem...
– perfeito, lembras-te?
... não fosse possível. Não fosse real nem de enquadramento possível.
Demasiado carnal, musculado, tenso, encorpado.
– e ela não dormia...
Ela raramente dormia. Não em viagem quando os olhos se recusavam a
olhar para dentro na fome do cenário perfeito. Entretinha-se, quieta,
com o telemóvel no silêncio, a enviar por sms o que os seus olhos
traduziam no peito. Por isso viu a chegada do cavalo negro, luzidio.
Tão irreal quanto o corpo do homem deitado a seu lado, adormecido.
Riu-se sózinha como se a loucura pudesse ser colectiva: coração a
bater perante o corpo do cavalo preto recortado no céu azul — demasiado
musculado para ser alado, como de resto, o do homem.
– não o acorda?
Não, não, não, teme acordá-lo. Teme que acorde inquieto. Com passos
cuidadosos procura na mochila a máquina fotográfica dele e fotografa o
cavalo recortado no cimo da colina...
– os eternos álbuns de memórias.
De memórias, de paisagens, de pensamentos vagamente estranhos,
descoordenados, caóticos: dois corpos fora de perspectiva.
– E o dela?
Quando ela toma consciência do seu corpo e reconhece o número ímpar de
corpos pensa que um cavalo branco virá. Ri-se do surrealismo dos seus
próprios pensamentosi. Mas o cavalo branco é dentro dela uma certeza
tão acabada que duvida de si mesma.
-porquê um cavalo branco? simbologia de algo que não quer traduzir em palavras?
o bem e o mal, a bondade e a crueldade, os antagonismos sempre
presentes no ser humano, a complexidade do ser, essas tretas queres tu
dizer?
– ela é que sabe.
Ela não sabe. Não sabe ainda nada, naquele momento, ela apenas intui,
inventa, imagina, projecta. O clic contínuo da máquina fotográfica
acorda o homem.
Parece sereno, depois das horas de descanso. Beijam-se.
Ela aponta-lhe o cavalo e diz-lhe, espera por um outro que virá. Branco.
Ele ri-se. Grande imagem. Estou tão bem. Lancham com os pés dentro da
água fresca do riacho, devagar como se qualquer movimento mais brusco
os fizesse sair daquele enquadramento agora perfeito, de corpo e
espírito. Foi quando ambos comiam pêssegos de polpa madura e doce que
o cavalo branco surgiu lentamente no horizonte, caminhando em direcção
à colina onde o outro permanecia. Ele deixou cair no rio, o pedaço de
pêssego, olhando para ela atónito.
Ela amedrontou-se perante a materialização do seu próprio vaticínio.
A clarividência.
– como se fosse possível.
Como se fosse possível, repete ela, como se fosse possível o
verdadeiro encontro entre ambos.
– não se encontraram?
Não. O cavalo branco nunca conseguiu transpor a pequena falésia
escarpada de que era feita a colina. O cavalo negro, azul de tão
negro, nunca descobriu como descê-la. Ela não esperava este fim,
quando imaginou a chegada de um segundo cavalo. Ficaram olhando-se,
relinchando e abanando as crinas, cada um no seu mundo, cada um no seu
contexto, cada um no seu plano, sem nunca se encontrarem, tocarem, sem
nunca conhecerem a perspectiva contrária, sem nunca perceberem o
sentido da visão do outro. Em planos opostos. A atracção dos opostos
era visível pelos sinais físicos. Um contra-luz qualquer ao entardecer
(ela agora desenhava circunferências com o pé direito no ar,
incomodada deveras pela imobilidade dos membros, dando pequenos
estalos) fazia daquele quadro um acto fora da peça que ela imaginara.
Não haveria um final feliz.
– porque é que essa imagem não te sai da cabeça?
Porque é vulgar: é o retrato minimizado do mundo.


Strangers in the night (Peggy Lee)

Strangers in the night exchanging glances
Wond'ring in the night
What were the chances we'd be sharing love
Before the night was through.

Something in your eyes was so inviting,
Something in your smile was so exciting,
Something in my heart,
Told me I must have you.

Strangers in the night, two lonely people
We were strangers in the night
Up to the moment
When we said our first hello.
Little did we know
Love was just a glance away,
A warm embracing dance away and -

Ever since that night we've been together.
Lovers at first sight, in love forever.
It turned out so right,
For strangers in the night.

Love was just a glance away,
A warm embracing dance away - 

Ever since that night we've been together.
Lovers at first sight, in love forever.
It turned out so right,
For strangers in the night.


VandaBaltazar

Molecular o desassossego dos corpos

Molecular o desassossego dos corpos no encontro com a seiva.
Molecular o pó na brisa, nas folhas, nas asas.
ah!... a inquietude das asas!
talvez no momento,
talvez,
se aquiete.
E depois?

[a liberdade das libelinhas
é um micro
organismo
mutualista
— entre dias supremos
e noites infímas —
que nos desperta,
inquietando]


As time goes by (Peggy Lee)

You must remember this
A kiss is still a kiss
A sigh is still (just) a sigh
The fundamental things apply
As time goes by

And when two lovers woo
They still say: "I love you"
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by

Moonlight and love songs - never out of date
Hearts full of passion - jealousy and hate
Woman needs man - and man must have his mate
That no one can deny

It's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die
The world will always welcome lovers
As time goes by


VandaBaltazar

Ainda o sol caía

Ainda o sol caía sobre a mesa desarrumada
do néctar dos copos
e suaves corolas dançavam
no jarro quebrado
quando as avenidas se varreram de vento
e sobre os olhos do menino pousaram
as noites cantadas pela voz do anjo que,
embalando-se, o adormecia,

Ainda os pássaros não tocavam o chão
nem os corpos dos amantes se procuravam
quando, de ferro e veloz,
a carruagem cortou firme e em linha recta
a paisagem que subia aos seus olhos
e como se regurgitasse o ventre d'água que o protegera
— deus de carne em placenta anónima —
chorou.

Vago e impreciso foi o primeiro gesto da pequena mão,
querendo deter a velocidade do vento e do ferro,
deter as noites que assobiavam nas asas do anjo
e nas bainhas de linho e leite
guardar as luzes dos dias supremos, invioláveis.


Tardavam as borboletas a pousar na janela
quando ele descobriu, para lá da campina,
o vulto enevoado da estrada
e percebeu a cidade delineada nas coxas da mulher
inventada em corpo de menina.
Desejou possuí-la
como borboleta que viria, bela, imóvel, impossível.

Ah depois... depois vieram os passos e os tambores,
o colarinho gelado das manhãs de Inverno a entranhar-se no corpo franzino,
todas as conjugações de asas em línguas estrangeiras,
a lembrarem-no do silvo da serra e do veloz comboio,
silo de mel e sementes  que crescia,
erguendo a voz no desejo, no partir e no ficar.

Mapas abertos sobre a mesa silenciosa,
a caneta perseguindo a rota das especiarias,
lentamente a cera inquietante do soalho a acordar-lhe os sentidos,
a romper-lhe a fogo o ferro detido no seu corpo de homem,
o jarro quebrado e os copos vazios,
e na ausência demorada das borboletas,
interroga as corolas  do seu paradeiro,
percorrendo a névoa da sinuosa estrada da campina,
ao encontro da carruagem guardada na sua mão.
Semicerra os olhos onde outrora pousavam
as noites cantadas pela voz do anjo,
noites varridas de vento, sabe agora, a inscreverem borboletas.

Tardavam as borboletas a pousar na sua mão.


Is that all there is? (PJ Harvey)

I remember when I was a girl
Our house caught on fire
And I'll never forget the look on my father's face
As he gathered me in his arms
And raced to the burning building out on the pavement
And I stood there shivering
And watched the whole world go up in flames
And when it was all over
I said to myself
"Is that all there is to a fire?"
Is that all there is?

Is that all there is?
If that's all there is, my friends, then let's keep dancing
Let's break out the booze and have a ball
If that's all there is

And when I was twelve years old
My daddy took me to the circus
The greatest show on earth
And there were clowns
And elephants
Dancing bears,
And a beautiful lady in pink tights flew high above our heads

And as I sat there watching
I had the feeling that something was missing
I don't know what
But when it was all over
I said to myself
"Is that all there is to the circus?"

Is that all there is?
If that's all there is, my friends, then let's keep dancing
Let's break out the booze and have a ball
If that's all there is

And then I fell in love
With the most wonderful boy in the world
We'd take long walks down by the river
Or just sit for hours gazing into each other's eyes
We were so very much in love

And then one day
He went away
And i thought i'd die
But I didn't
And when I didn't
I said to myself
"Is that all there is to love?"

Is that all there is?
If that's all there is, my friends, then let's keep

I know what you must be saying to yourselves
If that's the way she feels about it
Then why doesn't she just end it all
Oh no. not me. i'm not ready for the final disappointment
'Cause I know just as well as i'm standing here talking to you
That when that final moment comes
And i'm breathing my last breath
I know what I'll be saying to myself
"Is that all there is?"

Is that all there is?
If that's all there is, my friends, then let's keep dancing
Let's break out the booze and have a ball
If that's all there is


Gostei da quietude deste lugar esquecido,
onde os silêncios ecoavam berberes pela pele,
e os ventos viviam sem norte.
Estrangeira de mim, nómada serena.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Rejuvenescence

Ligações
Peggy Lee, PJ Harvey

Textos:
Vanda Baltazar

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012