Sons da Escrita 353

30 de Julho de 2011

Terceiro programa do ciclo Vanda Baltazar

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VandaBaltazar

É do voo circunflexo

É do voo circunflexo dos pássaros de tinta
que nascem as flores voláteis do deserto...
Quando finalmente pousam,
na curva madura das suas bagas,
solta-se dos seus corpos
sofregos de terra e céu,
canto tão silencioso
quanto misterioso é para nós o seu voo.
Porque aos pássaros de tinta está vedado o canto
como a nós que os inventamos,
está vedado o fruto...


Courtyard lullaby (Loreena McKennitt)

Wherein the deep night sky
The stars lie in its embrace
The courtyard still in its sleep
And peace comes over your face.

"Come to me," it sings
"Hear the pulse of the land
The ocean's rhythms pull
To hold your heart in its hand."

And when the wind draws strong
Across the cypress trees
The nightbirds cease their songs
So gathers memories.

Last night you spoke of a dream
Where forests stretched to the east
And each bird sang its song
A unicorn joined in a feast

And in a corner stood
A pomegranate tree
With wild flowers there
No mortal eye could see

Yet still some mystery befalls
Sure as the cock crows at morn
The world in stillness keeps
The secret of babes to be born

I heard an old voice say
"Don't go far from the land
The seasons have their way
No mortal can understand."


VandaBaltazar

Então é isso que hoje percebes.

Então é isso que hoje percebes. Estás de pé, com os olhos no vazio da árvore. A árvore deixou de ser árvore para ser a Árvore. Na ausência, perdeu todas as caracteristicas que outrora descreveste, a tristeza, o cinzento, a frágil nudez no desamparo do inverno, a vulnerabilidade do tronco parceira da tua própria vulnerabilidade exposta ao longo do silêncio do  tempo. Perdeu também as que nunca chegaste a pronunciar. Pareciam-te, na altura, desnecessárias. Então é isso que começas por perceber, na sua ausência, ganhou a totalidade da rua em sentido ascendente. É agora inteira, a Árvore. Sabes, tu sabes, do seu corpo bifurcado, sabes ainda dos braços e dos dedos, a perfurarem o cinzento-rato desse dia que o calendário não avisava como sábado, nem domingo nem tão pouco feriado. Nem tão pouco especial. Navegas dentro do tempo do teu olhar onde ela existe, agora inteira, único lugar da sua existência presente. Então é isso que hoje percebes, como se nunca o tivesses percebido por outras palavras ou outros rostos, como se fosse a primeira vez de tudo e da morte, também.
Detens-te tantas vezes nos círculos que as ruas da cidade velha te oferecem, nas rotundas mal situadas onde os pensamentos circulam, ora lentos ora em contra mão a velocidades proibidas, mas hoje, percebes que és tu a circunferência onde converge todo o tráfego de papagaios verdes sem registo ou matrícula. É isso que percebes hoje.
Depois de teres percebido que se aos pássaros de tinta estava vedado o canto, a ti —assim sendo, concedes-te estariam vedados os frutos do seu voo circunflexo.


Yulunga — Spirit dance (Dead Can Dance)

(instrumental)

VandaBaltazar

Na compreensão desse dia posterior

Na compreensão desse dia posterior, tu percebes a vida, ainda a possibilidade de vida através das asas verdes, pincéis surreais que te abrem de espanto os olhos sonâmbulos de tristeza, num dia anterior a tudo. Lembras-te da fome dos pássaros a acariciarem a Árvore, e sabes, testemunha do milagre na cidade velha, como eles se demoraram a conhecer o tronco, a subi-lo centímetro a centímetro, desde o chão, até lhe descobrirem já longe do vulgar asfalto, onde os homens pousam os olhos e as mulheres os saltos e onde os carros riscam destinos sem origem, os frutos...
Tão demorada fome consentida traziam no seu voo!
Essa imagem, a da fome saciada dos papagaios verdes, é-te riso.
É a negação do Inverno no céu sem sol e na cidade, sem amor.
É a negação do teu inverno — e para a tua fome infinita, é a esperança.
Sem réstea de vergonha chamas os homens distraídos, as mulheres ocupadas, chamas o estrangeiro que tão bem te entende e a tua voz irrompe  na rua de pedra e chumbo, com asas verdes e bagas e esperança. E à tua chamada, a rua ri-se contigo.
Então é isso que hoje percebes, como se nunca o tivesses entendido por outras palavras ou na leitura atenta de outros rostos.
Ali não existiu apenas uma árvore. Existiu a Árvore, a vida realizada.
Existiu um poema exuberante de verde e asas e é de poemas de tinta que a tua fome — e a deles — se alimentará, doravante.
Dói-te a verdade. O poema é lancetado na grande ausência da Árvore.


Soon (Yes)

Soon oh soon the light
Pass within and soothe THIS endless night
And wait here for you
Our reason to be here

Soon oh soon the time
All we move to gain will reach and calm
Our heart is open
Our reason to be here

Long ago, set into rhyme

Soon oh soon the light
Ours to shape for all time, ours the right
The sun will lead us
Our reason to be here
The sun will lead us
Our reason to be here


se hoje te encontrasse Amor,
lembrar-te-ia, Amor, das ardósias em branco
que coloriste e depois, descuidado,
deixaste ao abandono de cada ser...


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Lanz

Ligações
Lorena McKennitt, Dead Can Dance, Yes

Textos:
Vanda Baltazar

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012