Sons da Escrita 097

24 de Dezembro de 2006

Primeiro programa com vários autores

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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HugoSantos

De repente, a distância (Hugo Santos)

De repente a distância cresceu dentro de ti como se o meu corpo fosse um barco a afastar-se do cais onde te vi, pela primeira vez, com olhos de querer bem e, marcada em mim, ficou a tua ausência.

Já não sou o recanto do meu sossego, nem o eco da inocência que não tive.
Encho os olhos de mar e abro, de par em par, os meus sentidos, para deixar passar todos os barcos perdidos.
Digo, às vezes, que a fantasia sufoca o prazer.
Uma festa íntima revela-me sempre a transparência de anjos verdes dentro da solidão.
E escondo-me de mim. Faço asneiras. Relembro as brincadeiras mais travessas. Viro o sonho às avessas.
Os sonhos deixaram-me esta secura de doer. Tento soltar ao vento as hesitações que provocam a intensidade dos pesadelos.

Meu amor que se perdeu, porque não dizes qual o cheiro do luar, quando a alma é saciada? Não sabes, ou nunca te aconteceu?


From a distance (Byrds) 

From a distance the world looks blue and green,
and the snow-capped mountains white.
From a distance the ocean meets the stream,
and the eagle takes to flight.

From a distance, there is harmony,
and it echoes through the land.
It's the voice of hope, it's the voice of peace,
it's the voice of every man.

From a distance we all have enough,
and no one is in need.
And there are no guns, no bombs, and no disease,
no hungry mouths to feed.

From a distance we are instruments
marching in a common band.
Playing songs of hope, playing songs of peace.
They're the songs of every man.
God is watching us. God is watching us.
God is watching us from a distance.

From a distance you look like my friend,
even though we are at war.
From a distance I just cannot comprehend
what all this fighting is for.

From a distance there is harmony,
and it echoes through the land.
And it's the hope of hopes, it's the love of loves,
it's the heart of every man.

It's the hope of hopes, it's the love of loves.
This is the song of every man.
And God is watching us, God is watching us,
God is watching us from a distance.
Oh, God is watching us, God is watching.
God is watching us from a distance


Pablo Neruda

Plenos poderes (Pablo Neruda)

Tão pacientes fomos para sermos
que anotámos os números, os dias,
os anos e os meses,
os cabelos, as bocas que beijámos,
e aquele minuto antes de morrer
deixa-lo-emos sem anotação:
dâmo-lo aos outros como lembrança
ou simplesmente à água,
à água, ao ar, ao tempo.

E de nascer tão-pouco guardámos a memória.
Ainda que importante e jovial
tenha sido a nossa vida;
e agora não te lembres sequer
do mais pequeno promenor,
não guardaste sequer um ramo
da primeira luz.

Sabe-se apenas que nascemos.

Um nó é dado com o fio da vida,
Nada, não ficou nada na tua memória
do mar bravio que ergueu uma onda
e derrubou da árvore uma maçã sombria.

Não tens mais recordações que a tua vida.


In a lifetime (Clannad & Bono)

hard to tell
or recognise a sign
to see me through
a warning sign
first the thunder
satisfied, if the past it will not lie
then the storm
torn assunder
the future you and I get blown away
in the storm
in a lifetime
and as the rain it falls
begin again, as the storm breaks through
heavy in my heart
believe the light in you
so the light shines in you
without color, faded and worn
torn asunder in the storm
unless the sound has faded from your soul
unless it disappears
first the thunder
selfish storm
then the storm
hold on the inside
torn asunder
one life
in the storm
in a lifetime
in a lifetime


Joaquim Pessoa

A pedra da águia (Joaquim Pessoa)

A pedra da águia move a noite do Tempo sobre os desfiladeiros e as montanhas.

Um lago escuro, um poço de estrelas é o rosto da noite, o espelho do céu. A dor estrangeira estremece a voz que vigia a planície e, ao longe, há uvas no deserto para lá da faca do sol.
Dias e noites, dias e noites procurando um nome onde se move azul a pedra da águia.
A tempestade suspende o coração com as cordas da distância que loucamente balançam a esperança perdida. Cachos de sangue dão razão ao vento.
Uma cidade branca, imóvel, irrompe do céu para a angústia das horas e nas suas portas altas o fogo não dorme. Sobre as muralhas ouve-se o canto em coração caído do pássaro sábio, esse filho do sol. Diamantes cobrem o eco das espadas. Prudentemente se acende o medo em fogueira de esmeraldas e o génio da planície levanta as mãos para recolher a águia ferida. Pelo passo da montanha a erva cresce, o abutre cala, adivinha-se o lobo no tremor das faias.
Para sempre será o sangue o esconderijo da luz. Do fim da noite, o Homem trouxe o talismã da claridade, porque ainda se move a pedra da águia junto ao coração. A fidelidade da água, a segurança do bosque, o chamamento da montanha, acodem ao silêncio abandonado.

Ó pai do vento, na prudente distância dos teus olhos, qual é o tempo do fogo e o rumo da flecha?


The eagle will rise again (Alan Parsons Project)

And I could easily fall from grace
Then another would take my place
For the chance to behold your face

As the days of my life are but grains of sand
As they fall from your open hand
At the call of the wind's command

Many words are spoken when there's nothing to say
The fall upon the ears of those who don't know the way
To read between the lines, that lead between the lines, that lead me to you

All that I ask you
Is, show me how to follow you and I'll obey
Teach me how to reach you I can't find my own way
Let me see the light, let me be the light

As the sun turns slowly around the sky
Till the shadow of night is high
The eagle will learn to fly

As the days of his life are but grains of sand
As they fall from your open hand
And vanish upon the land

Many words are spoken when there's nothing to say
The fall upon the ears of those who don't know the way
To read between the lines, that lead between the lines, that lead me to you
Show me how to follow you and I'll obey
Teach me how to reach you I can't find my own way
Let me see the light, let me be the light
And so, with no warning, no last goodbye
In the dawn of the morning sky
The eagle will rise again


Quando canto a liberdade, a paz, o amor,
não me resistas:
vem desfazer-te em lágrimas comigo!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Schönherz & Scott

Ligações
Byrds, Clannad & Bono, Alan Parsons Project

Textos:
Hugo Santos, Pablo Neruda, Joaquim Pessoa, José-António Moreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012