Sons da Escrita 098

29 de Dezembro de 2006

Segundo programa com vários autores

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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EugéniodeAndrade

Canção (Eugénio de Andrade)

Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da nadrugada.

Tu eras água.
Água do mar se te beijava
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.


A taste of honey (Beatles) 

A taste of honey... tasting much sweeter than wine.

I dream of your first kiss, and then,
I feel upon my lips again,
A taste of honey... tasting much sweeter than wine.

I will return, yes I will return,
I'll come back for the honey and you.

Yours was the kiss that awoke my heart,
There lingers still, 'though we're far apart,
That taste of honey... tasting much sweeter than wine.

I will return, yes I will return,
I'll come back (he'll come back) for the honey (for the honey) and you.


António Ramos Rosa

Mediadora das palavras (António Ramos Rosa)

Um rumor irrompe das nocturnas
margens. Sombras deslumbrantes.
Um fulgor que desnuda e que despoja.
Campo de água ágil. Dança

imóvel. Uma cegueira arde
incendiando o tempo. Pátria
áspera de delicado alento.
Soberano marulhar do inexplorável.

Unânime é a pedra. Selvagem
a palavra despedaça a língua.
Um silêncio central domina e orienta
a substância primária. A palavra inicia.

Rapidez da água entre resíduos
obscuros. Talvez o diadema.
Talvez a obscura dança aérea.
O leve poder do fogo, as suas marcas

ácidas. Pulsação
dos poros. Ardor do silêncio
no nocturno centro. Fulgor do desejo.
Uma deusa de água espraia-se nas palavras.


More than words (Extreme)

Saying "I love you"
Is not the words I want to hear from you
It's not that I want you
Not to say, but if you only knew how easy
It would be to show me how you feel

More than words
Is all you have to do to make it real
Then you wouldn't have to say that you love me
'Cause I'd already know

What would you do if my heart was torn in two?
More than words to show you feel
That your love for me is real
What would you say if I took those words away?
Then you couldn't make things new
Just by saying "I love you"

More than words

Now that I've tried to talk to you
And make you understand
All you have to do is close your eyes
And just reach out your hands
And touch me
Hold me close, don't ever let me go
More than words
Is all I ever needed you to show
Then you wouldn't have to say that you love me
'Cause I'd already know

What would you do if my heart was torn in two?
More than words to show you feel
That your love for me is real
What would you say if I took those words away?
Then you couldn't make things new
just by saying "I love you"

More than words
More than words


Arsélio Martins

Não sei (Arsélio Martins)

Um dia, há muitos anos, um poeta amigo escreveu três versos aparentemente desconexos. Fiz-lhe notar que, do primeiro para o segundo, a escada não tinha quaisquer degraus e, do segundo para o terceiro, nem degraus nem sinal de lá ter estado qualquer escada.

Ele tinha o hábito de encolher os ombros e, por isso, fiquei sem saber se, naquela altura ele estava a encolher os ombros para responder à minha observação. De qualquer maneira, não insisti na observação e ele nunca comentou o meu reparo.

Aos quarenta anos, o poeta publicou o seu terceiro livro de poemas. Ao folhear o livro deparei com o poema dos três versos  a que faltavam algumas das palavras da versão original.

Ao ler os três versos agora, passados tantos anos, achei-os belos —  sou agora capaz de ver os degraus —  e referindo-lhe as minhas dúvidas do passado, acabei por lhe perguntar pelas palavras que faltam.

Ele encolheu os ombros, mas falou desta vez. Tinha caído tinta no original e ele  simplesmente não tinha conseguido decifrar essas palavras. Considerando-as insubstituíveis, em vez delas, deixou espaços em branco. 

"Bem me podias ter telefonado" — foi o que me ocorreu dizer-lhe na ocasião para o ouvir dizer, sem qualquer ponta de ironia, enquanto encolhia os ombros: "Não são as palavras que fazem o poema. "
Então, o que é? —  perguntei.
E ele respondeu: "Não sei."


If you don't know me by now (Simply Red)

If you don't know me by now
You will never never never know me

All the things that we've been through
You should understand me like I understand you
Now girl I know the difference between right and wrong
I ain't gonna do nothing to break up our happy home
Oh don't get so excited when I come home a little late at night
Cos we only act like children when we argue fuss and fight

If you don't know me by now (If you don't know me)
You will never never never know me (No you won't)
If you don't know me by now
You will never never never know me

We've all got our own funny moods
I've got mine, woman you've got yours too
Just trust in me like I trust in you
As long as we've been together it should be so easy to do
Just get yourself together or we might as well say goodbye
What good is a love affair when you can't see eye to eye, oh

If you don't know me by now (If you don't know me)
You will never never never know me (No you won't)
If you don't know me by now (You will never never never know me)
You will never never never know me (ooh)


Olha para mim agora, porque estou cansado de uivar!
Olha só para mim, porque não quero negociar a minha vida como se fosse um saldo!
Vestido o desgosto diante do algoz da minha exaustão, ainda me pergunto se ouvirei a palavra desculpa!
Desculpa, a palavra que se usa tarde demais e que não significa mais do que ‘perdoa os meus dias de ontem’!
O silêncio fala!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Camel

Ligações
Beatles, Extreme, Simply Red

Textos:
Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, Arsélio Martins

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012