Sons da Escrita 099

30 de Dezembro de 2006

Terceiro programa com vários autores

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Herberto Helder

Ninguém se aproxima de ninguém (Herberto Helder)

Ninguém se aproxima de ninguém se não for num murmúrio, entre floras altas: camélias de ar espancado, as labaredas dos aloés erguidas de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem tão leve que não suporta o peso brusco do sangue — as veias da garganta contra a boca.

Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem do lado reluzente das laranjeiras.
E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas. E a queimadura subia por antebraço, braço, ao coração sacudido.
Eu — perfumado e queimado por dentro: um laço feito de odor transposto, ar fosforescendo, uma árvore banhada nocturnamente. Tudo em mim trazido súbito para o meio. Quando este saco de sangue rodava defronte da abertura prodigiosa.que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.


I can't see nobody (Bee Gees) 

I walk the lonely streets; I watch the people passing by.
I used to smile and say hello. Guess I was just a happy guy.
Then you happened,girl, this feeling that posesses me.
I just can't move myself. I guess it all just had to be. 

(Chorus)
I can't see nobody...no, I can't see nobody.
Mine eyes can only look at you...you. 

I used to have a brain; I used to think of many things.
I watched the falling rain and listened to the sweet birds sing.
Don't ask me why, little girl. I love you and that's all I can say.
You're ev'ry ,ev'ry breath I take.You are my nights; my night and day. 

(chorus...) 

Every single word you hear...is coming from this heart of mine.
I never felt like this before...a love like yours so young and fine.
And now as I try to forget you...it doesn't work out any way.
I loved you such a long time ago...but in my eyes you'll always be.
Every single word you hear...is coming from this heart of mine.
I loved you such a long time ago...don't know why...
And I don't know why...baby...


Sebastião Alba

Ninguém, meu amor (Sebastião Alba)

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


Nobody loves you when you're down and out (John Lennon)

Nobody loves you when you're down and out
Nobody sees you when you're on cloud nine
Everybody's hustlin' for a buck and a dime
I'll scratch your back and you scratch mine 

I've been across to the other side
I've shown you everything, I got nothing to hide
And still you ask me do I love you, what it is, what it is
All I can tell you is it's all show biz
All I can tell you is it's all show biz 

Nobody loves you when you're down and out
Nobody knows you when you're on cloud nine
Everybody's hustlin' for a buck and a dime
I'll scratch your back and you knife mine 

I've been across the water now so many times
I've seen the one eyed witchdoctor leading the blind
And still you ask me do I love you, what you say, what you say
Everytime I put my finger on it, it slips away
Everytime I put my finger on it, it slips away 

Well I get up in the morning and I'm looking in the mirror to see, ooo wee!
Then I'm lying in the darkness and I know I can't get to sleep, ooo wee! 

Nobody loves you when you're old and grey
Nobody needs you when you're upside down
Everybody's hollerin' 'bout their own birthday
Everybody loves you when you're six foot in the ground


José-António Moreira

Realidade ou ilusão (José-António Moreira)

O jogador tinha as cartas nas mãos e baralhava-as, lentamente, com gestos hábeis, intercalando-as umas nas outras. Fazia todos os movimentos com extraordinária elegância e meticulosidade. As pessoas seguiam com extrema atenção todos aqueles movimentos, na expectativa de descobrir uma falha.
Então, o jogador parou de baralhar e todos ficaram suspensos da mão que, com movimentos seguros, retirou uma carta ao acaso e a colocou, voltada para cima, sobre o pano verde, enquanto percorria, com o olhar, o rosto de cada um à sua volta. Todos tinham visto e confirmavam que era a Dama de Espadas.
Depois, o jogador pegou na carta e colocou-a entre as outras do baralho, ao acaso, e retomou os movimentos de as baralhar cuidadosamente, como se praticasse um ritual de expurgação de qualquer regra.
Passado algum tempo, o jogador quedou-se e a tensão em volta aumentou. Do meio do baralho ia ser retirada outra carta. Aí estava ela! Fantástico! Era a Dama de Espadas.
A assistência trocava olhares de admiração, enquanto o jogador retomava as operações já descritas. Depois, era outra vez a expectativa. Será que… Sim! Era, novamente, a Dama de Espadas.
O jogador tinha um estranho sorriso distribuído pelos cantos dos lábios. E prosseguia. Uma vez, outra vez, uma outra ainda. Até que alguém disse de forma a ouvir-se claramente: Ora, é por acaso!
Nessa altura, o jogador parou e ficou muito sério, enquanto procurava com o olhar o autor da frase mágica que tinha quebrado todo o encanto daqueles momentos.
Lentamente, começou a voltar todas as cartas sobre a mesa, uma após outra. Um Ahh! de espanto percorreu os presentes: as cartas eram todas iguais, cada uma delas uma Dama de Espadas.
Então o jogador recolheu as cartas todas e guardou-as num dos bolsos do seu casaco preto, preparando-se para se retirar. Mas, a meio desse gesto, voltou a tirar o baralho de cartas do bolso e recomeçou.

O jogador tinha as cartas nas mãos e baralhava-as, lentamente, com gestos hábeis, intercalando-as umas nas outras. Fazia todos os movimentos com extraordinária elegância e meticulosidade. As pessoas seguiam com extrema atenção todos aqueles movimentos, na expectativa de descobrir uma falha.
Então, o jogador parou de baralhar e todos ficaram suspensos da mão que, com movimentos seguros, retirou uma carta ao acaso e a colocou, voltada para cima, sobre o pano verde, enquanto percorria, com o olhar, o rosto de cada um à sua volta. Todos tinham visto e confirmavam que era o Valete de Copas.
Depois, o jogador pegou na carta e colocou-a entre as outras do baralho, ao acaso, e retomou os movimentos de as baralhar cuidadosamente, como se praticasse um ritual de expurgação de qualquer regra.
Passado algum tempo, o jogador quedou-se e a tensão em volta aumentou. Do meio do baralho ia ser retirada outra carta. Aí estava ela! Fantástico! Era o Valete de Copas.
A assistência trocava olhares de admiração, enquanto o jogador retomava as operações já descritas. Depois era outra vez a expectativa. Será que… Sim! Era, novamente, o Valete de Copas.
O jogador tinha um estranho sorriso distribuído pelos cantos dos lábios. E prosseguia. Uma vez, outra vez, uma outra ainda. Até que alguém disse de forma a ouvir-se claramente: Ora, as cartas são todas iguais!
Nessa altura, o jogador parou e ficou muito sério, enquanto procurava com o olhar o autor da frase mágica que tinha quebrado todo o encanto daqueles momentos.
Depois começou a voltar todas as cartas sobre a mesa, uma após outra. Um Ahh! De espanto percorreu os presentes: ali estavam as cinquenta e duas cartas iguais às cinquenta e duas cartas diferentes de qualquer baralho.


The day begins (Moody Blues)

Cold-hearted orb that rules the night,
Removes the colors from our sight,
Red is gray and yellow white,
But we decide which is right,
And which is an illusion.
Pinprick holes in a colorless sky,
Let insipid figures of light pass by,
The mighty light of ten thousand suns,
Challenges infinity and is soon gone.
Nighttime, to some a brief interlude,
To others the fear of solitude.
Brave Helios, wake up your steeds,
Bring the warmth the countryside needs.


Um pincel. A pintura! — a pintura da porta, do armário, da parede; a pintura da tela — o quadro!

Uma viola. A música, só a música!
(De ti, ao menos, não me vêm dúvidas e, se tenho alguém em quem esperar, é em ti, amante fidelíssima.)


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani, Vangelis Papathanasious, Tangerine Dream

Ligações
Bee Gees, John Lennon, Moody Blues

Textos:
Herberto Helder, Sebastião Alba e José-António Moreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012