Sons da Escrita 148

23 de Dezembro 2007

Quarto programa com vários autores

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Pedro Tamen

Fresco era o dia (Pedro Tamen)

Fresco era o dia, plantado na chuva, jovens os relógios tocando Mozart...
Os carros corriam, os passos passavam e os velhos sentados dormiam no tempo regressos perdidos de todas as sombras.
Pássaro poisado na alma da tarde, era todo o sol natural inverno...
O mar estava perto nos olhos da gente, um barco chegava em cada minuto e o segredo bailava nas mãos da criança.
Recordo uma paz sob as gabardinas, recordo humidade nas rodas dos carros... (Tão solta no ar corria a memória que as folhas tão verdes marcavam os anos).
A chuva nascia da terra para o ar e ria na cara da gente perpétua — cada riso dela era a rua inteira e era o cão vadio cheirando esta terra gerada no vento pelo grande gesto.
Rua colocada por amor das formigas, pequeno brinquedo achado no bosque, eras mão aberta para todos os sons, para cada assobio de vapor de água, para a bela frescura da brisa salgada.
Ligeiros, os céus brincavam escondidos com a tarde criança presente no ar, jogavam às pedras ao pé dos passeios e corriam juntos fugindo do vento...
Passavam pessoas de faces vermelhas, de um sono pequeno agora acordadas, seus passos miúdos de nada sabiam — nada estava feito e tinham dez anos.
A branca neblina sentada no sol sorria de perto a tudo o que era e tudo saltava na sua presença.
Escorregavam horas do berço dos ramos ficando caladas, respirando fumo... E, leves, cheirosas, perpassavam mãos, tão estreitas e fortes, do primeiro mundo...
Algo se esperava, algo estava perto, algo era preciso, faltava a resposta, o rio que fosse a cama da chuva, a sombra final para o sol se deitar, a torre perfeita com todos os olhos, a mão que apertasse as coisas dispersas...
E eis que o rio vem, a sombra e a torre, e se estendem dedos com a tua chegada.
Saltaram coelhos de todas as tocas e a fonte da serra sorriu-se no musgo. Manaram os beijos no ar respirado e as malas abertas mostraram o fundo. Fugiram cavalos de pernas de espuma levando no pêlo notícias em branco. E o vento corria em busca da lua e a tarde e os céus calavam os gritos...
Silêncio se fez, e a erva cresceu mais verde e mais fresca, segura certeza. Espreitaram os sinos, riram-se as escadas, tudo estava pronto e de novo erguido...
Tão bela que vinhas como que de infância, tão pura e tão simples, tão gesto benigno, tão nova palavra rasgada no mar…
Menina dos anos, dos anos perdidos, sombra de outras noites, noiva de outros dias, perfeita miragem, pele das próprias mãos, eis que então chegavas e eis que eu te via, e as horas sorriam, felizes, completas... Teu rosto era a concha dos quatro oceanos, teu corpo era a praia de areia molhada, teus olhos erguiam o toldo do céu e enchiam os mastros de verdes bandeiras. Tu eras o vento, tu eras a força, dançavam secretas tuas mãos de aragem...
Nasceste presença na tarde de bronze e agora já nada seria indeciso. Agora eras tu a essência dos nomes, os galos cantavam, era bom respirar... Os prados distantes ficavam tranquilos, esperando os teus pés, berlindes pequenos. A chuva e a brisa, a jovem frescura, ganhavam certeza, seguras estavam — morena lembrança, segundo natal.
Nunca mais a noite mordida no escuro, nunca mais o dia manchado de cuspo, nunca mais o véu tapando-me tudo, nunca mais os dedos procurando flores... A estátua plantada na nudez do largo devolvia a calma aos olhos fechados e enchia de sombra as pedras queimadas.
Agora eu sabia que em cada manhã nasceria o sol atrás dos teus ombros.


Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil)

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar


David-Mourão Ferreira

Natal, e não Dezembro (David-Mourão Ferreira)

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...

Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...

Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


Jesus to a child (George Michael) 

Kindness In your eyes
I guess You heard me cry
You smiled at me like Jesus to a child
I'm blessed I know
Heaven sent And Heaven stole
You smiled at me like Jesus to a child
And what have I learned
From all this pain
I thought I'd never feel the same
About anyone
Or anything again
But now I know when you find love
When you know that it exists
Then the lover that you miss
Will come to you on those cold, cold nights
When you've been loved
When you know it holds such bliss
Then the lover that you kissed
Will comfort you when there's no hope in sight
Sadness in my eyes no one guessed or no one tried
You smiled at me like Jesus to a child
Loveless and cold
With your last breath you saved my soul
You smiled at me like Jesus to a child
And what have I learned from all these tears
I've waited for you all those years
And just when it began he took your love away
But I still say when you find love
When you know that it exists then the lover that you miss
Will come to you on those cold, cold nights
When you've been loved
When you know it holds such bliss
Then the lover that you kissed
Will comfort you when there's no hope in sight
So the words you could not say I'll sing them for you
And the love we would have made I'll make it for two
For every single memory has become a part of me
You will always be My love
Well I've been loved so I know just what love is
And the lover that I kissed is always by my side
Oh the lover I still miss was Jesus to a child


Ary dos Santos

Quando um homem quiser (José Carlos Ary dos Santos)

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.


Jesus is just alright (Byrds)

Jesus is just all right with me
Jesus is just all right, Oh yeah
Jesus is just all right with me
Jesus is just all right

I don't care what they may know
I don't care where they may go
I don't care what they may know
Jesus is just all right, oh yeah
Jesus is just all right

I don't care what they may say
I don't care what they may do
I don't care what they may say
Jesus is just all right, oh yeah
Jesus is just all right

Do, do, do

Jesus is just all right with me
Jesus is just all right, Oh yeah
Jesus is just all right with me
Jesus is just all right

Jesus is just all right with me
Jesus is just all right, Oh yeah
Jesus is just all right with me
Jesus is just all right


White Christmas (Diana Krall)

I'm dreaming of a white Christmas
Just like the ones I used to know
Where the treetops glisten
and children listen
To hear sleigh bells in the snow

I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmases be white

I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright


Tristeza, vai-te embora
Tristeza, pequena morte
Chega a noite, vai-se o dia
e assim há-de desaparecer
este pobre diabo que eu sou,
com calças rotas  e camisola cosida
Esperavas um milagre nesta noite de Natal?
A camisola não recebeste
As calças não tas deram
Bem feito, para não acreditares em anjos.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kostia, Schönherz & Scott, David Arkenstone

Ligações
George Michael, Byrds, Gilberto Gil, Dianna Krall

Textos:
Pedro Tamen, David-Mourão Ferreira, José Carlos Ary dos Santos, Mário

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012