Sons da Escrita 149

28 de Dezembro 2007

Quinto programa com vários autores

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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José de Almada Negreiros

Reconhecimento à loucura (José de Almada Negreiros)

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.


Bless the wings (Moody Blues)

Like the rose that blooms in the wintertime
As it reaches up through the snow
The more life keeps us apart
The more love will grow
Like the seed that grows in the darkness
As it reaches up to the sun
I will always reach out for you
'Cos you are the one

I bless the wings that bring you
back across the shore
If I could touch you now my darling
I'd love you just once more
If I could hold you, hold you, hold you,
I know you'd understand.

As I cross the bridge by the waterfall
As I make my way by the stars
There's a shadow walking beside me
Here in my heart
Like the restless wind in the tree tops
Like a whispered voice in my ear
I will always be there for you
I'll always be here

In a far off wonderland
That flashes past my eyes
The kiss of inspiration that was mine
The dust of many centuries
Has blown across this land
But love will not be scattered by the sand

Like the sunrise over the mountainside
Like the bird that has to be free
There's a part of you that will always be
part of me


Daniel Faria

Ando um pouco acima do chão (Daniel Faria)

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separa como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe


One's man ceiling is another man's floor (Paul Simon) 

There's been some hard feelings here
About some words that were said
Been some hard feelings here
And what is more
There's been a bloody purple nose
And some bloody purple clothes
That were messing up the lobby floor
It's just apartment house rules
So all you 'partment fools
Remember: one man's ceiling is another man's floor!
One man's ceiling is another man's floor


There's been some strange goin's on
And some folks have come and gone
Like the elevator man don't work no more
I heard a racket in the hall
And I thought I heard a call
But I never opened up my door
It's just apartment house sense
It's like apartment rents
Remember: one man's ceiling is another man's floor!
one man's ceiling is another man's floor!


There's an alley
in the back of my building
Where some people congregate in shame
I was walking with my dog
And the night was black with smog
When I thought I heard somebody
Call my name

Ah — Remember: one man's ceiling is another man's floor!
one man's ceiling is another man's floor!


Luísa Ribeiro

A única núvem (Luísa Ribeiro)

A única nuvem que existe está
sobre o meu pátio — esquadria
da minha pele por escurecer. O tempo

não vibra a meu favor não apanha as estrelas
imaginadas para ti nem recolhe as flores
selvagens do teu sangue

permanece a nuvem e eu existo
no trapézio das tuas perigosas mãos.


Cloud 9 (George Harrison)

Have my love
It fits you like a glove
Join my dream, tell me yes
Bail out should there be a mess
The pieces you don't need are mine

Take my time
I'll show you cloud nine
Take my smile and my heart
They were yours from the start
The pieces to omit are mine

Have my love
Use it while it does you good
Share my highs but the times
That it hurts pay no mind
The pieces you don't need are mine

I'll see you there on cloud nine

Take my hope
Maybe even share a joke
If there's good to be shown
You may make it all your own
And if you want to quit that's fine
While you're out looking for cloud nine


Andámos toda a noite calados e sós
de jardim em jardim, na lua dos bancos…
(Que bom! Começou enfim o silêncio entre nós.
O silêncio da aranha a tecer cabelos brancos.)


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Mike Oldfield, Project Divinity, Wayne Gratz

Ligações
Moody Blues, Paul Simon, George Harrison

Textos:
José de Almada Negreiros, Daniel Faria, Luísa Ribeiro, José Gomes Ferreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012