Sons da Escrita 150

31 de Dezembro 2007

Sexto programa com vários autores

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Papiniano Carlos

De mãos dadas (Papiniano Carlos)

Era um carreiro,
era um atalho,
era um caminho
é uma estrada larga por onde
caminhamos de mãos dadas.

Era um fio de água,
era uma fonte,
era um ribeiro,
é um imenso rio de sangue correndo
nas veias dos homens de mãos dadas.

Era um sopro,
era uma aragem,
era um vento,
é um vendaval levando-nos
por sobre o mundo de mãos dadas.

Era uma chama,
era uma faísca subtil,
era uma fogueira,
é um incêndio, é uma aurora cobrindo
os que marcham invencíveis de mãos dadas.


I wanna hold your hand (Beatles)

Oh yeah, I´ll tell you something
I think you´ll understand
When I say that something
I wanna hold your hand

Oh, please, say to me
You´ll let me be your man
and please, say to me

You´ll let me hold your hand
Now let me hold your hand
I wanna hold your hand

And when I touch you i feel happy, inside
It´s such a feeling
That my love
I cannot hide

Yeah you, got that something
I think you´ll understand
When I say that something
I wanna hold your hand

And when I touch you I feel happy, inside
It´s such a feeling
That my love

Yeah you, got that something
I think you´ll understand
When I feel that something
I wanna hold your hand


André Moreira

À falta de areia (André Moreira)

À falta de areia para esconder a cabeça e as dores de cotovelo, mergulhei no mar.
Durante horas a fio, mantive-me debaixo de água e pensei. Pensei em tudo. Pensei em ti.
E já com a pele enrugada pela humidade da água sentei-me no fundo do mar.
Enrolado à volta das conchas e dos corais multicolores que dão outra côr para além da do céu ao mar, meu país, minha cidade, minha casa, primeira e última morada, adormeci.


Sandman (America) 

Ain't it foggy outside
All the planes have been grounded
Ain't the fire inside?
Let's all go stand around it
Funny, I've been there
And you've been here
And we ain't had no time to drink that beer 

'Cause I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned 

Ain't the years gone by fast
I suppose you have missed them
Oh, I almost forgot to ask
Did you hear of my enlistment? 

Funny, I've been there
And you've been here
And we ain't had no time to drink that beer 

'Cause I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned 

I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned 

I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned 

I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned


Arsélio Martins

Túnel (Arsélio Martins)

Sentado no último banco da última carruagem do comboio, José António sentiu a guinada da partida, ainda antes de ter ouvido a última nota do apito do chefe da estação.

Estava encostado à janela sem ver. Quando olhou para fora, já só viu a parede negra do túnel que tinha engolido o comboio. Fechou os olhos para não ver, fingiu que dormia. Passada que foi a eternidade, José António abriu os olhos e encontrou a mesma escuridão. Já com os sentidos todos alerta contra a angústia, sentiu a prisão. Ouviu o chiar metálico do comboio nos carris, viu a falta de luz, cheirou a carruagem vazia, tacteou a napa dos bancos, falou baixinho para si mesmo. Sentiu o tremor na voz e procurou escondê-lo, soltando uma canção ligeira, desajeitada e desesperadamente.

Já calado, fixou o olhar na parede escura que passava por ele. Começou a pensar na prisão da partida, em que se tinha enclausurado voluntariamente para esquecer os seus pontos de partida. Nem vivalma na carruagem. Quando se sentou naquele lugar, desejou não ter companhia. Mas agora sente a falta das pessoas, enquanto pensa que ninguém, em seu perfeito juizo, foge de si mesmo prendendo-se ao último banco da última carruagem do comboio que não tem destino marcado na estação de embarque. E começou a conjecturar sobre o destino do comboio.

Já tinha passado aquele túnel tantas vezes e não percebe porque é que ele agora nunca mais acaba. Levanta-se. Senta-se. Levanta-se. Senta-se. Aflito e exausto adormece. Quando acorda de novo, tenta ver as horas. É manhã do dia seguinte e o comboio ainda está no túnel. Tenta acalmar-se e não consegue. Lembra-se em todos os detalhes da fotografia que em tempos tirou da luz ao fundo daquele túnel. Agora só espera que aquela imagem apareça. Já nem deseja sair do túnel realmente, só espera a imagem fotográfica que guarda da luz anunciadora da curva do fim do túnel.

Pelas 8 horas, José António ouve barulho de conversa.
Os operários da manutenção da CP acabam de chegar e dirigem-se ao comboio que tinha sido conduzido ao hangar para ser reparado.


Long train running (Doobie Brothers)

Down around the corner
A half a mile from here
You CAN see them LONG trains RUN
And you watch them disappear
Without love
Where would you be now
Without love 

You know I saw Miss Lucy
Down along the tracks
She lost her home and her family
And she won't be comin' back
Without love
Where would you be RIGHT now
Without love 

Well the Illinois Central
And the Southern Central Freight
Gotta keep on pushin' Mama
'Cause you know they're runnin' late
Without love
Where would you be now - now, now, now
Without love 

WELL THE pistons keep on churnin'
And the wheels go 'round and 'round
And the steel rails are cold and hard
For the miles that they go down
Without love
Where would you be right now
Without love
Where would you be now


Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider, David Lanz & Paul Speer, Channel Light Vessel

Ligações
Beatles, America, Doobie Brothers

Textos:
Papiniano Carlos, André Moreira, Arsélio Martins, António Gedeão

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012