Sons da Escrita 330

12 de Março de 2011

Seis anos de Sons da Escrita

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Luís Vaz de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (Luís de Camões)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
 
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
 
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
 
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (José Mário Branco)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
 
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
 
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
 
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

E se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu’inda o dia é uma criança


Liberdade (Sérgio Godinho)

Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quanto não se teve nada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.


Liberdade (Sérgio Godinho)

Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quanto não se teve nada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.


Fernandinho vai ao vinho (Júlio Pereira)

É em casa que começa
esta história d’ir ao vinho,
é a história dos recados
do estar às ordens prontinho

E na escola continua
esta história do favor
de sacola sempre pronta
p’rós recados do Doutor!

Fernandinho vai ao vinho,
com o copo direitinho!

E depois pela vida fora
na tropa e no trabalhinho,
eis-me aqui às vossas ordens
e de corpo direitinho

Eis-me aqui às vossas ordens
e de corpo diretinho
eis aquilo que me ensinaram
assim é que és homenzinho.

Fernandinho vai ao vinho,
com o copo direitinho!

E quando às tantas já sentimos
que ir ao vinho e voltar,
dá certeza de ficar
mas de não modificar

E ao sabermos o que é
o recado d’ir ao vinho,
já o copo se começa
a partir pelo caminho!

Fernandinho vai ao vinho,
parte o copo pelo caminho!


Fernandinho vai ao vinho (Júlio Pereira)

É em casa que começa
esta história d’ir ao vinho,
é a história dos recados
do estar às ordens prontinho

E na escola continua
esta história do favor
de sacola sempre pronta
p’rós recados do Doutor!

Fernandinho vai ao vinho,
com o copo direitinho!

E depois pela vida fora
na tropa e no trabalhinho,
eis-me aqui às vossas ordens
e de corpo direitinho

Eis-me aqui às vossas ordens
e de corpo diretinho
eis aquilo que me ensinaram
assim é que és homenzinho.

Fernandinho vai ao vinho,
com o copo direitinho!

E quando às tantas já sentimos
que ir ao vinho e voltar,
dá certeza de ficar
mas de não modificar

E ao sabermos o que é
o recado d’ir ao vinho,
já o copo se começa
a partir pelo caminho!

Fernandinho vai ao vinho,
parte o copo pelo caminho!


Europa acidental (Joaquim Pessoa)

Europa acidental.
Europa acidental.

Aqui nem mal nem bem.
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
é porque a gente nasce
de um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
é natural
(naturalmente)
que haja também
gente que é gente de bem
e gente que é apenas gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

O mal
é ter na nossa frente
um mar de sal.
Um mar de gente
que de repente
(é assim mesmo: de repente!)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

Não andar para trás
nem para a frente.

Nascer morto ou vivo
é tão normal
que é indiferente.

E vai-se toda a vida
na corrente.
E a gente morre de repente.
Sempre de costas.
Nunca de frente.
De morte necessária e natural
(naturalmente).

Europa acidental.
Europa acidental.

O principal
não é viver:
é estar presente
nesta maneira ocidental
de apodrecer decentemente.

Esta é uma questão fundamental
(é evidente!).


Cantar de emigração (Adriano Correia de Oliveira)

Este parte,
aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão

Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai 

Coração
que tens e sofres
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará

Este parte,
aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão

aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão

Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai 

Coração
que tens e sofres
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará

Este parte,
aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão

Este parte,
aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão

Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração
que tens e sofres
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará

Este parte,
aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Modica, Rodrigo Leão, Schönherz & Scott, Yanni

Ligações
José Mário Branco, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, Adriano Correia de Oliveira

Textos:
Luís de Camões, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, Joaquim Pessoa

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012