Sons da Escrita 241

4 de Setembro de 2009

Primeiro programa do ciclo Vasco Gato

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VascoGato

Falo de um homem que possuía livros de poemas (Vasco Gato)

Falo de um homem que possuía livros de poemas. Foi talvez o único real leitor. Ele abria os livros, um livro. Escolhia um poema. Era um ritual misterioso. Porque ele raspava as letras da página, cuidadosamente, como para conservar a integridade do papel. Raspava e reunia os pedaços negros. Aquecia então água com o vagar próprio da vertigem. Uma estranha ciência de vapores.

A infusão sucedia: a escura substância do poema misturava-se mais e mais com o fervor da água, até ao ponto em que tudo aquilo era vivo. O homem bebia então o poema e o poema flutuava no sangue, atingindo todos os lugares do corpo, reclamando todos os lugares do corpo. Não era previsível o efeito do poema. Cada poema dissolvido, sorvido, feito homem, trazia consigo uma possibilidade própria. O homem crescia com o poema, crescia mais para si, mais para o poema.

O homem que possuía livros de poemas, possuía uma biblioteca em branco. Páginas e páginas de poemas arrancados sem vestígios, um crime perfeito. Era uma biblioteca poética. Uma biblioteca que podia arder.


Everyday I Write The Book (Elvis Costello)

Don't tell me you don't know what love is
When you're old enough to know better
When you find strange hands in your sweater
When your dreamboat turns out to be a footnote
I'm a man with a mission in two or three editions

And I'm giving you a longing look
Everyday, everyday, everyday I write the book

Chapter One we didn't really get too far
Chapter Two I think I fell in love with you
You said you'd stand by me in the middle of Chapter Three
But you were up to your old tricks in
Chapters Four, Five and Six

And I'm giving you a longing look
Everyday, everyday, everyday I write the book
The way you walk
The way you talk, and try to kiss me, and laugh
In four or five paragraphs
All your compliments and your cutting remarks
Are captured here in my quotation marks

And I'm giving you a longing look
Everyday, everyday, everyday I write the book
Don't tell me you don't know the difference
Between a lover and a fighter
With my pen and my electric typewriter
Even in a perfect world where everyone was equal
I'd still own the film rights and be working on the sequel

And I'm giving you a longing look
Everyday, everyday, everyday I write the book


VascoGato

Búzio (Vasco Gato)

sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.

mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.

por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.


 

Castles In the Sand (Seals & Crofts)

Every little thing you do makes me feel good.
And I could be your prince, babe, if I only would.
And I could take you places you think you'd like to go.
And I could show you secrets behind ev'ry closed door.

But it's only the castles in the sand. I'll never be your man.
Castles in the sand, they'll never, never stand.
Like castles in the sand, I'll never be your man.

Now every little thing you do makes me feel fine.
And I could be your daddy, if it's on your mind.
And I could buy you diamonds and all them fancy clothes.
And I could give you lovin' like nobody knows.
But it's only the castles in the sand, love. I'll never be your man.
Castles in the sand, they'll never, never stand.
Like castles in the sand, I'll never be your man.

Your eyes are dancing and saying to me in the sunlight, I want you so,
You are beautiful, a princess. But I'm like the sand when the wind blows.

It's only the castles in the sand. I'll never be your man.
Castles in the sand, they'll never, never stand.
Like castles in the sand, I'll never be your man.
Castles in the sand, castles in the sand, castles in the sand.
See the castles in the sand.

VascoGato

Dentro de um corpo (Vasco Gato)

Pôr as mãos dentro de um corpo
seria invadir um calor sagrado

Porque um corpo
é como um astro implícito,
frágil, cuja órbita intersecta a pureza,
descaindo de sombra em sombra
até à memória tangível
em que aparece

Um corpo desenhado a giz,
arrancado ao ar, agora táctil, vivo,
furtando-se ao precipício frio
que ameaça os flancos do espaço,
dançando nas muralhas da noite

Corpo que não se deve possuir,
mas escutar, escutar

Deve haver música no interior de um corpo


Musica Sara (Laura Pausini)

Da sempre la veritá  sto cercando intensamente
Scoprendo la mia identitá  dentro gli occhi della gente
E l'emozione nasce in silenzio come la neve d'inverno
Un bacio interno
Mi sta planando
Sopra l'anima
Musica sara' la forza che hai dentro
Che tutta l'energia libererá 
Musica sara' un sole che va
Per chi per chi non ha luce
Da sempre io vivo qua senza aspettarmi niente
Ma credo nella volontá  di chi fabbrica il presente
E la passione sorprende il tempo come una rosa d'inverno
Un sogno eterno
Mi sta cantando
Dentro l'anima
Musica sara' l'amore che hai dentro
Che co n la sua follia ci salverà
Musica sara' la strada che va
Per chi, per chi non ha pace
Musica sara' un grido nel vento
La musica á un idea di libertá 
Apre le sue immense ali e sveglia le cittá 
Spalancando la realtà come l'alba il buio della notte
Musica sara' la forza che hai dentro che
Tutta l'energia libererá  musica sara'
Un fiume che va per chi
Musica sara' l'amore nel mondo
Che con la sua follia ci salverá 
Musica sara' la vita che va
Per chi per chi non ha voce
Da sempre la veritá 
Sto cercando intensamente


A minha alegria é um aroma de tangerinas nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Roger Subirana, Alasdair Fraser, Secret Garden

Ligações
Elvis Costello, Seals & Crofts, Laura Pausini

Textos:
Vasco Gato

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012