Sons da Escrita 242

11 de Setembro de 2009

Segundo programa do ciclo Vasco Gato

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

VascoGato

A prisão e paixão de Egon Schiele.1 (Vasco Gato)

A esta hora em que a noite é uma seringa partida. A esta hora em que os pulmões são de seda e o sangue circula muito devagar. Eu não estou.
Pode ser a chuva numa esplanada ou, ao invés, o carro que trava o tempo da primavera. Não importa.
A noite é uma especiaria que acende os corpos.
Há três dias que durmo desordenadamente. Transpiro e acordo e vejo casas que são desdobramentos da minha própria casa. A verdade é que preciso de ti para um poema. Preciso que te passeies por uma dessas casas, que te sentes, que te deites. Preciso olhar para ti durante 27 segundos.
A solidão é um serviço misterioso. Reunimo-nos para prestar contas do nosso desaparecimento e por vezes agarramos um braço como se pretendêssemos instalá-lo, de repente e para sempre, na nossa ternura.
Todos os meus silêncios são uma criança que espreita. Todas as minhas faltas são uma criança entusiasmada. Todos os meus poemas são crianças mudas que gesticulam.
Todos os dias saio para a decisão de um amor sem protagonista. Encosto-me às paragens de autocarro e aceno subitamente a alguém que passa. Por vezes retribuem-me o gesto e ficamos ambos sem saber se por graça, se por um escuro reduto de uma franqueza cada vez mais rara. Tens tempo para um estranho? A que horas me poderias dizer o teu nome? Conheço uma igreja que ardeu, conheço outra que é muito muito pequena. Escuta, no meio desse teu deserto, ao passar a caravana do luxo, será que és capaz de suplicar: água?
És capaz? És capaz ainda de suplicar?
Bebe, este poema actua sobre o nervo da alegria. Este poema é um cavalo de crina incendiada a ultrapassar a tarde. Nunca perceberás por que se move, para onde vai, de que se alimenta. Bebe, alguma vez estiveste ébrio no meio da tua ignorância?
Preciso de ti para um poema. Ofereço-te em troca o meu auto-retrato sincero. Tenho quarenta livros prontos para serem lidos. Tenho uma estratégia infalível para implementar a primavera. Tenho a segurança de um corpo cheio de insónias, pele de galinha, súbitos arrepios, termómetros para novecentas febres, saliva muito devagar, pés descalços, arrebatamentos incomunicáveis, fins de noite numa garrafa de vinho, estilhaços de quatrocentos orgasmos, comoções, paixões flagrantes, primeiros cuidados para jovens suicidas, lâmpadas que se queimaram nas minhas próprias mãos.
Não me visites. Não me visites agora. A noite deu-me uma filha. Tem cabelos verdes. Fiz-lhe um berço de papel. Parece uma estrela caída do invisível trapézio. Vai demorar muito tempo até reencontrar o equilíbrio. Tem pés muito pequenos. Dorme de dia, e à noite respira muito e não me larga a mão.
Sou um pintor. Trago sangue para os vossos olhos. Tenho artérias que se descosem e me cospem dentro de mim mesmo. Preciso de muita paciência, de todas as mulheres do mundo. Durmo sobre a cama profana da minha escuridão. Contagio e deixo-me contagiar pela peste dos bairros pequenos. Não suporto muita luz, não sei o que é uma avenida. Esquina, sou qualquer coisa que o espanto torce. Sou viciado no álcool dos corpos que se difundem. Bebo das vossas bocas o que não pode ser visto. Pinto para me esquecer do que não pode ser visto. Pinto com os materiais clandestinos do meu amor. Não projecto nada na minha tela. Eu sou a tela. Eu sou a luta das cores por um diafragma de beleza. Sou um pintor. Mereço morrer como pintor. Não mereço que me prendam. Mereço todas as minhas paixões. Mereço todas as minhas paixões.
Vi tudo. Não tudo, mas tudo o que me aconteceu. Garanto-te que prestei atenção e estou pronto para mais 47 anos de fita. Não quero rebobinar, quero atravessar os pomares da minha loucura terrena, colhendo frutos, marcando todas as árvores, com fogo, a ilegível assinatura da minha passagem.
Não é para decifrar! Não é para decifrar! É para se desfazer na boca, como açúcar, como vinho, como a erva lenta da infância.


Solved (Unbelievable Truth)

There's a problem, I can't solve it
The only way out is too hard now
There's another one when this one's gone
Can't send it along
You can't send it along
And it's all I've got
And it's not enough
And it's time to reason out my mind
What's a problem soon forgotten
Catching up with me and talking
Of a hero's so-called perfect life
Can't send it along
And this time who's alone
Thinking of ways to keep my time from running out
Thinking of ways to keep my pride from running out
So many reasons I can't give
For running out
Keep my head down but I still know
You can't send it along


VascoGato

A prisão e paixão de Egon Schiele.2 (Vasco Gato)

Farei a noite, a vertigem dos corpos,
até que a exaltação atinja um lugar extremo
e tudo seja iniciado.

A punção da noite
abrirá espaço para uma estrela. E a luz derramar-se-á.
O mundo será o meu oráculo.

Preciso começar-me.

Vejo a nítida falésia de sombra estremecer
e estrelas entrarem pela cabeça do morto.
Ilumina-se o crânio, por dentro, e aos poucos
o corpo recomeça a fluir. Vejo o morto correr, nu,
cintilando pela noite. Corre de um instante impossível.

Mas ouve: a borboleta que ressuscita os mortos
não deve ser cativada. É perigoso conter essas forças
vivas como pulsos. É perigosíssimo
o fogo.

Sei como é voluntária a encenação
da minha queda. Porque a cada grito no abismo corresponde
uma sabedoria no canto. Que entra na voz,
na voz que grita, na voz que canta - é um estranho
jogo de ecos este, escavando fundo na treva, ouro
que irrompe, musical. E é tão inesgotável esse
árduo filão do mistério.

É importante manter os obstáculos no caminho,
e fazer o caminho. Que seria do caminho senão os obstáculos,
senão uma prática de superação?

Há uma casa mais abaixo.
Desço, entro na câmara escura dessa casa, fecho a porta,
e revelo, revelo, não paro de revelar - o meu rosto.

Porque quando sobreponho as imagens,
vejo acender-se a invisível malha do espaço, ardendo,
expondo os alicerces do tempo.

E o morto regressa
à visão. Reuniu os ventos e ameaça derrubar o céu.
Diz: não desistirei de exercer a minha ignorância,
preparar-me para outros saberes: não abdicarei
de uma vida copiosa - é um manifesto feroz.

Irei para a floresta ou para o deserto,
para um qualquer lugar inóspito onde possa
experimentar, aterrorizado, a pureza
da minha voz.
Há muito que desejo romper
este cordão umbilical, ampliar-me, e agitar
as esferas, os campos, as possibilidades
de transparecer um poder obscuro, terrível,
o poder da minha própria
morte.

Porque: que é uma coisa senão
o lento acordar da sua morte, das suas mortes?
Digo que cada coisa é um caminho para fora
de si mesma. Que são intermináveis
as coisas sucessivas.

Digo que a voz do morto soava assim
pelo corpo de dedos fulminados. Batia na perfeição,
como a cadência precipitada da chuva
- um som perturbador e insistente, belíssimo.

E eu estava aterrado, dominado por fúrias,
e fiz erguer o meu braço. Era um gesto,
um movimento deflagrado por
clara inocência.

E a sabedoria moveu-se
da boca para o sangue.


A rush of blood to the head (Coldplay)

He said Im gonna buy this place and burn it down
Im gonna put it six feet underground
He said Im gonna buy this place and watch it fall
Stand here beside me baby in the crumbling walls
Oh Im gonna buy this place and start a fire
Stand here until I fill all your hearts desires
Because Im gonna buy this place and see it burn
Do back the things it did to you in return
Ah,ah,ah
He said oh Im gonna buy a gun and start a war
If you can tell me something worth fighting for
Oh and Im gonna buy this place, thats what I said
Blame it upon a rush of blood to the head
And honey
All the movements you’re starting to make
See me crumble and fall on my face
And I know the mistakes that I made
See it all disappear without a trace
And they call as they beckon you on
They say start as you mean to go on
Start as you mean to go on
He said Im gonna buy this place and see it go
Stand here beside me baby watch the orange glow
Some'll laugh and some just sit and cry
But you just sit down there and you wonder why
So Im gonna buy a gun and start a war
If you can tell me something worth fighting for
Im gonna buy this place, thats what I said
Blame it upon a rush of blood to the head
And honey
All the movements youre starting to make
See me crumble and fall on my face
And I know the mistakes that I made
See it all disappear without a trace
And they call as they beckon you on
They said start as you mean to go on
As you mean to go on, as you mean to go on
So meet me by the bridge, meet me on the lane
When am I going to see that pretty face again
Meet me on the road, ye meet me where I said
Blame it all upon
A rush of blood to the head


VascoGato

Era apenas um livro — Omertà (Vasco Gato)

Era apenas um livro. Teria forçosamente que ser um livro: a aparência era de livro, o comportamento era sem dúvida de livro. Todos sabiam, porque sempre fora assim, que mais um livro não traria nada de extraordinário: letras, vírgulas, alguma gramática. É isto um livro. Porém, quando abriram aquele livro, e era de facto um livro, notaram uma qualquer presença estranha, algo que não souberam definir. Fechavam-no, abriam-no. Olhavam atentamente a capa, interrogavam. Lançavam-no ao ar numa última tentativa de desmanchar o truque: mas ele caía como um livro, desprezando as suas páginas como todos os livros.

Sussurravam de uns para os outros: o que se passa com este livro? Trocavam olhares cúmplices quando entreviam num rosto alheio o efeito da mais breve leitura que fosse daquele livro. Os sintomas eram claros para quem já lera uma parte. Um tremor subtil na pele, um desajeitado modo de ter mãos, ora no bolso, ora na cara, ora rodando no ar, um passo levemente incerto, uma tensão nas sobrancelhas. Para quem não lera, porém, tudo corria calendariamente.

Os leitores daquele livro inquietante aproximavam-se, trocavam hipóteses de solução, procuravam desesperadamente calar o desconforto que a leitura lhes ia gradualmente instalando. As suas vidas pareciam irremediavelmente suspensas perante a urgência do fenómeno. Olhavam, liam: letras, vírgulas, gramática. Tudo aquilo ressoava na memória. Eu sei o que isto é!, diziam. Não existia nada de desconhecido naquele livro. Porém, revelava-se absolutamente incomparável. E nisto consistia o mistério. O olhar passava pelas palavras no mesmo gesto mecânico de sempre, da esquerda para a direita, atento às pausas, descendo suavemente a página. E, no entanto, assomava ao cimo desse olhar treinado uma sensação de tontura que depois alastrava por todo o corpo. O livro era insuportável, excessivo. Era preciso fechá-lo abruptamente para não se cair ao chão.

Mas por quê? Que subtil e raro poder circulava na normalidade daquele livro? Era isto que traziam para a rua. Alguns paravam subitamente no passeio, ou acordavam em sobressalto durante a noite, como se houvessem decifrado o problema. Escapava-se-lhes. Regressavam ao livro contrafeitos, mas num estado de profundo encantamento. Umas palavras mais, mentalizavam-se. Mas liam sempre mais do que podiam e a tontura assinalava-lhes de imediato a transgressão. Começavam a desenvolver um agudíssimo sentido dos detalhes. Viviam mais lentamente. Cuidavam do livro como se se tratasse de uma matéria preciosa, a mais preciosa. As suas vidas cresciam em intensidade.

Era um livro único, excepcional.


Storybook love (Mark Knopfler)

Come my love I'll tell you a tale
Of a boy and girl and their love story
And how he loved her oh so much
And all the charms she did possess
Now this did happen once upon a time
When things were not so complex
How he worshipped the ground she walked
And when he looked in her eyes he became obsessed.

My love is like a storybook story
But it's as real as the feelings I feel
My love is like a storybook story
But it's as real as the feelings I feel
It's as real as the feelings I feel

This love was stronger than the powers so dark
A prince could have within his keeping
His spells to weave and steal a heart
Within her breast but only sleeping

My love is like a storybook story
But it's as real as the feelings I feel
My love is like a storybook story
But it's as real as the feelings I feel
It's as real as the feelings I feel

He said, "Don't you know I love you oh so much
And lay my heart at the foot of your dress?"
She said, "Don't you know that storybook loves
Always have a happy ending?"
Then he swooped her up just like in the books
And on his stallion they rode away

My love is like a storybook story
But it's as real as the feelings I feel
My love is like a storybook story
But it's as real as the feelings I feel


Somos a carne de um fruto atordoado. Somos o dia aparatoso
nas escadas, depois navios ancorados carregados de bruma.
Bebemos o sangue dos poentes como animais incrédulos
de morrer.

Quando tens frio, risco-me como fósforo na tua pele ondu-
lada. E dá-se o acidente nas gavetas.

As tuas pernas afogam-se em poços de água, eu tenho os bra-
ços engessados numa parede violenta - porém beijamo-
-nos na boca lenta da madrugada.

O meu nome acordou povoado pelo teu nome.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson, Gandalf

Ligações
Unbelievable Truth, Coldplay, Mark Knopfler

Textos:
Vasco Gato

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012