Sons da Escrita 245

2 de Outubro de 2009

Quinto programa do ciclo Vasco Gato

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VascoGato

O mesmo nome (Vasco Gato)

Hesito muito antes da palavra.
porque um precipício se abre nela
e não tem sentido, vibra apenas.
porque pode ser a morte
ou o nascimento para um lugar
de cores e fadas e barcos de sol.
porque me doem as mãos
cada vez que tento segurar
o mundo em traços redondos quadrados.
por isso te digo: hesito e morro e nasço.
e corro para a rua com a força de quem
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas
enquanto caminho para um banco
de jardim, devagarinho,
como se por um momento
eu soubesse o nome de tudo
e tudo tivesse o mesmo nome.


Name of love (Crosby, Stills, Nash & Young)

You who rule upon the land,
(Do it in the name of love)
You hold the future in your hand,
(Do it in the name of love)
When you take your people down the road,
(Do it in the name of love)
Before another bomb explodes.
(Do it in the name of ---)

Can you do it in the name of love?
Can you do it in the name of love?

And when you sail upon the sea
(Do it in the name of love)
This one's for you, this one's for me.
(Do it in the name of love)
Before another missile flies
(Do it in the name of love)
You who soar into the sky
(Do it in the name of ---).
Can you do it in the name of love?
Can you do it in the name of love?

And so I shout around the world
(Do it in the name of love)
To every boy and every girl,
(Do it in the name of ---).

Can you do it in the name of love?
Can you do it in the name of love?
Can you do it in the name of love?


VascoGato

Primeiros socorros (Vasco Gato)

A ferida por baixo da cicatriz
– quem cura?

Por vezes são estrelas que sobem
quando a água ocupa o espaço
e um brilho esquivo tropeça
no cansaço
do dia

No chão ainda morno
ardem pétalas sossegadamente
e há a melancolia de um pássaro

Na varanda esquecida
por trás de toda a magia da noite
(há tanta solidão em quem repara)
dura um homem que diz baixinho
assim quase para fora

A ferida por baixo da cicatriz
— quem cura?


Help me up (Eric Clapton)

Are you going to help me or will you let me down?
I'm looking for a true love but am I lost or found?
And will we cry in passion or will we cry in pain?
And will our lonely teardrops fill the world with rain?

Help me up, don't you let me down.
I'm gonna wake up in heaven, not the cold, cold ground.

Can't you hear the lovers crying in the night?
They spend their whole lives trying; still can't get it right.
I don't know where we're going but I guess we'll start
And just to show that I mean it, baby here's my heart.

Chorus

Living on my feelings, feelings all I know.
Baby once we touch it, we'll never let it go.

VascoGato

Se alguém te disser (Vasco Gato)

Se alguém te disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca. 
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue.


Dead things (Emiliana Torrini)

You're like me
We're both alone
What's the problem
I don't know
With the same high
The same eyes
But you can't borrow my clothes all the time 

Bad things
Dead things
Sad things have to happen
Sometimes 

I let the snow
Melt in my mouth
Until my head hurts
Until I'm out
Makes me laugh a bit
Makes me cry
Same way you confuse me all the time 

Bad things
Dead things
Sad things have to happen 

Bad things
Dead things
Sad things have to happen

Bad things
Dead things
Sad things have to happen

Sometimes
Sometimes
Sometimes
Sooometimes


Uma planta nasce dividida num vaso. Metade das suas folhas
pertence-me; a outra é de alguém que desconheço. Ambos
estamos ali a ver o mesmo? É no meio que principia a erguer-se
um caule inexistente. Seremos os dois um só? E olhamos
para o que fica dividido até sabermos onde está completa a planta.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Thomas Newman, Osvaldo Montes, Oystein Sevåg

Ligações
Crosby, Stills, Nash & Young, Eric Clapton, Emiliana Torrini

Textos:
Vasco Gato

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012