Sons da Escrita 302

29 de Outubro de 2010

Segundo programa do ciclo Vasco Graça Moura

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Vasco Graça Moura

O suporte da música

o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se. ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.


Musica è (Eros Ramazzotti & Andrea Bocelli))

Musica è
guardare più lontano
e perdersi in se stessi
la luce che rinasce
e coglierne i reflessi
su pianure azzurre si aprono
su più su i miei pensieri spaziano
ed io mi accorgo che
che tutto intorno a me, a me

musica è
la danza regolare
di tutti i tuoi respiri su di me
la festa dei tuoi occhi
appena mi sorridi
tu e il suono delle labbra tue
tu sempre di più
quell’armonia raggiunta in due
ti ascolterò perché
sei musica per me, per me

musica è
musica è

musica è
musica è

musica è
musica è

io sento ancora le voci
della strada dove son nato
mia madre quante volte mi
avrà chiamato ma era più
forte il grido di libertà
e sotto il sole che fulmina
i cortili le corse polverose
dei bambini che di giocare
non la smettono più
io sento ancora cantare
in dialetto, le ninne nanne
di pioggia sul tetto
tutto questo per me
questo dolce arpreggiare
è musica da ricordare
è dentro di me...
fa parte di me...
cammina con me... è

musica è
l’amico che ti parla
quando ti senti solo
sai che una mano puoi trovarla
è... musica è
da conservare,
da salvare insieme a te

senti
più siamo in tanti e più in alto
sale un coro in lingua universale
dice che dice che
anche del cielo han bucato
la pelle - lo senti
è l’urlo delle stelle

forse cambierà nella testa
della gente la mentalità
di chi ascolta ma non sente
prima che il silenzio
scenda su ogni cosa
quel silenzio grande
dopo l’aria esplosa
perché un mondo senza musica
non si può neanche immaginare
perché ogni cuore
anche il più piccolo
è un battito di vita
e d’amore che
musica è


Vasco Graça Moura

O revólver

vem, quando o coração não aguenta
a atroz pressão dos versos numa prega
mais da realidade, a violenta
morte cujo revólver, se fumega

por disparar assim à queima-roupa,
guarda inda várias balas no tambor
de uma melancolia que não poupa
as suas munições e o mais que for

da praxe para um dia, no grau zero,
se apagarem sinais do coração,
quer o queiram sincero ou insincero.
vem, de certeza, quando já não são

os golpes da paixão arrebatada
a comandar a vida, o desafio
de jogar de uma vez a tudo ou nada,
como a roleta russa, a sangue-frio.

e ao vir, nos ganha a aposta. que talvez
corroa fundo as outras engrenagens
da fala e as matérias de que fez
a liga do metal destas imagens,

por ter com a palavra uma raiz
comum que não sabemos todavia
se podemos tocar, quando nos diz
ser no verbo que o mundo principia.

assim, se o coração não aguenta
a atroz pressão dos versos numa prega
mais da realidade, nos violenta
e o seu próprio revólver nos entrega.


Killing me softly with his song (Roberta Flack)

Strumming my pain with his fingers
Singing my life with his words
Killing me softly with his song
Killing me softly with his song
Telling my whole life with his words
Killing me softly, with his song

I heard he sang a good song, I heard he had a style
And so I came to see him, and listen for a while
And there he was, this young boy, a stranger to my eyes

I felt all flushed with fever, embarrassed by the crowd
I felt he found my letters, and read each one out loud
I prayed that he would finish, but he just kept right on

He sang as if he knew me, and all my dark despair
and then he looked right through me as if I wasn't there
And he just kept on singing, singing clear and strong


Vasco Graça Moura

Crónica

eram barcos e barcos que largavam
fez-se dessa matéria a nossa vida
marujos e soldados que embarcavam
e gente que chorava à despedida

ficámos sempre ou quase ou por um triz
correndo atrás das sombras inseguras
sempre a sonhar com índias e brasis
e a descobrir as próprias desventuras

memória avermelhada dos corais
com sangue e sofrimento amalgamados
se rasga escuridões e temporais
traz-nos também nas algas enredados

e ganhou-se e perdeu-se a navegar
por má fortuna e vento repentino
e o tempo foi passando devagar
tão devagar nas rodas do destino

que ou nós nos encontramos ou então
ficamos uma vez mais à deriva
neste canto que é nosso próprio chão
sem que o canto sequer nos sobreviva


Longer boats (Cat Stevens)

Longer boats are coming to win us
They're coming to win us, they're coming to win us
Longer boats are coming to win us
Hold on to the shore, they'll be taking the key from the door. 

I don't want no god on my lawn
Just a flower I can help along
'Cause the soul of no body knows
how a flower grows... Oh how a flower grows. 

Chorus 

Mary dropped her pants by the sand
And let a parson come and take her hand
But the soul of no body knows
Where the parson goes, where does the parson go


Traz no corpo esse meneio
próprio do vaivém da vagas
e a cor delas também tragas
de olhos verdes para enleio
dos meus quando o sol apagas:
faço-me ao mar sem receio
por saber que me naufragas


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
George Davidson, Dead Can Dance, Suzanne Ciani

Ligações
Eros Ramazzotti & Andrea Bocelli, Roberta Flack, Cat Stevens

Textos:
Vasco Graça Moura

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012