Sons da Escrita 166

18 de Abril de 2008

Primeiro programa do ciclo Vieira da Silva

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VieiraSilva

Adolescente (Vieira da Silva)

sabes
mãe
não sei quem sou
mas já não sou o menino
de olhos abertos
de espanto
sentado no teu regaço
cresci
e quero ir sozinho
descobrir esta cidade
rasgar meu próprio caminho
na fogueira de um abraço
navegar
por entre as margens
dos rios da minha sede
sentir
no meu corpo aceso
todo o sol da madrugada
romper
as portas da noite
num gesto de ânsia e ternura
quebrar
os muros do sonho
com a força desta espada.


Cantiga de embalar (Vieira da Silva)

dorme sossegado
meu menino
dorme
que o teu sol foi trabalhar
foi fazer o dia de amanhã
dorme
que ele não vai demorar
dorme sem receio
que o papão
é uma velha história de enganar
dorme
enquanto a noite
vai sorrindo
à nova manhã
que vai chegar
dorme
meu menino
fecha os olhos
nunca tenhas medo de sonhar
dorme
que esta vida
é um navio
dorme
que amanhã
voltas ao mar


VieiraSilva

Jovens (Vieira da Silva)

cantam
de pé
na cidade
fartos das frases vazias
das palavras proibidas
dos infernos inventados
lançam
gritos
de revolta
contra o medo de viver
para lá do dia amargo
dos amores desencontrados
e avançam
no sonho imenso
de deixar o velho cais
e navegar navegar
de alcançar o infinito
na ternura de um abraço
que se quer eternizar


Do menino que foi jovem (Vieira da Silva)

um dia foi jovem
quis ser gavião
cortaram-lhe as asas
ficou pelo chão
subiu aos telhados
das casas da rua
para ver a terra
que não era sua
os senhores da terra
viram-no espreitar
seus olhos de sonho
mandaram cegar
sozinho na rua
chorou de saudade
sonhos de menino
que eram liberdade
um dia foi jovem
quis ser gavião
os senhores da terra
quiseram que não.

VieiraSilva

Escola (Vieira da Silva)

professor
não tenhas pressa
saí agora de casa
tenho a amarga sensação
de perda não sei de quê
de um regaço
de um abraço
que me ficou na memória
professor
não tenhas pressa
não sou um quadro vazio
já trago dentro de mim
os traços de outras viagens
imaginárias
reais
dos dias da minha história.


Balada para o menino do dia de hoje (Vieira da Silva)

menino desta manhã
acredita no papão
não acordes nesta terra
que os homens te matarão
olha os homens sem amor
a pregar humanidade
olha a força da mentira
calando toda a verdade
olha os homens a gritar
paz amor e liberdade
a matar os que não querem
servir a sua vontade
menino do dia de hoje
cerra os teus olhitos cerra
está condenado à prisão
quem quiser sonhar na terra.


o pensamento
devia ser aquele relógio
existir enquanto a corda durasse
e que bom que era
poder partir-lhe a corda


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Alan Stivell

Ligações
Vieira da Silva

Textos:
Vieira da Silva

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012