Sons da Escrita 167

25 de Abril de 2008

Segundo programa do ciclo Vieira da Silva

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VieiraSilva

Apatia (Vieira da Silva)

vi
lá muito ao longe
o sol
de cansado
enterrar-se todo
nas águas do mar
e deixei-o ir-se
sem o tentar salvar


Canção do dia imaginado (Vieira da Silva)

no sangue do sonho
força viva do cantar
vem toda a gente
que se cansou de esperar
no fogo do vento
raiz vulcão tempestade
vêm os homens
libertar a liberdade
na sede do gesto
garra vingança semente
vêm os vivos
fartos da morte existente
na nova cidade
fonte alicerce embrião
ergue-se o dia
ferro pedra furacão.


VieiraSilva

Desilusão (Vieira da Silva)

gritei
mas ninguém
me ouviu
chamei
ninguém
respondeu

chorei
e enterrei
o sonho que me morreu


Canção para uma manhã diferente (Vieira da Silva)

somos andorinhas negras
à procura dum país
onde exista primavera
e o povo seja feliz
trazemos a guerra urgente
contra tudo o que é bonança
para acordar quem se fica
na morte de ter esperança
quebrem-se as pontes dos homens
falsas canções de ternura
gritemos o desespero
com a raiva da loucura
queimem-se as noites de lua
com o rubro de alvorada
que nós faremos o sol
da manhã nunca encontrada


VieiraSilva

Amargura (Vieira da Silva)

tens razão
dentro de mim
ainda existe a criança
cheia de medos
que chora
quando a noite se adivinha
e esta amargura louca
não sei se é ela que a sofre
ou se sou eu que a invento
e a sinto toda minha


Este país (Vieira da Silva)

não podemos esperar
as madrugadas
prometidas
em discursos de euforia
que esta noite já vai longa
e as palavras
não acendem a fogueira de outro dia
não podemos descansar
nesta saudade
de não sei que paraísos inventados
que a batalha é aqui mesmo
que se faz
com os braços firmemente entrelaçados
não podemos amarrar
este país
na esperança de um abril que há-de chegar
já são horas de sairmos deste medo
e fazermos este barco navegar.


além
além
mais além
e no fim
o pesadelo
de ficar só
sem ninguém


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Alchemorphe Soundtracks

Ligações
Vieira da Silva

Textos:
Vieira da Silva

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012