Sons da Escrita 169

1 de Maio de 2008

Quarto programa do ciclo Vieira da Silva

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VieiraSilva

Quadras de Maio (Vieira da Silva)

ninguém nos vai dividir
somos um barco no mar
as ondas batem no casco
mas nada nos faz parar

em abril deste-me um cravo
em maio dei-te amizade
não há nada meu amigo
mais forte que esta unidade

quanto mais sorris maria
mais sinto o sol a nascer
em maio vais com as outras
não sabes o que é ceder

contigo amigo contigo
com todos de braço dado
que a vida é este futuro
que a morte é esse passado.


Para a construção da cidade necessária (Vieira da Silva)

tu
que acreditas
que a bruma
vai rasgar-se em dia aberto
tu
que acreditas
que o vento
vai quebrar-se em mar de calma
porque te ficas sentado
à janela da quimera
porque não vens para a rua
provocar a primavera
vem
vem desenhar o futuro
na morte deste presente
vem
vem mostrar a madrugada
e vem dá-la a toda a gente
tu
que adivinhas
que as nuvens
vão desfazer-se em azul
tu
que adivinhas
que a noite
vai resolver-se em luar
porque te deixas dormir
na cama da tradição
porque não fazes do sonho
o grito duma canção
vem
vem transformar o amor
até hoje inexistente
vem
vem construir a cidade
e vem dá-la a toda a gente.



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Brian Mann

Ligações
Vieira da Silva

Textos:
Vieira da Silva

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012