Sons da Escrita 170

2 de Maio de 2008

Quinto programa do ciclo Vieira da Silva

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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VieiraSilva

Companheira (Vieira da Silva)

para lá da solidão
que eu inventei
e vesti
outro cais se desenhava
na névoa dum novo dia
e tu vieste
e embarquei
e só então descobri
que antes de ti
não vivia.


A sudoeste (Vieira da Silva)

os tijolos
o cimento
a pedra
a cal
o homem
que tu és
nesta viagem
as mãos
em luta
em força
em poesia
no grito
rouco
louco
da batalha
operário
sonhador
de uma manhã
na construção
urgente
inadiável
da torre
da bandeira
da cidade
do sangue
do chicote
da certeza
do braço entrelaçado em cada braço
do canto em cada boca em cada canto
da hora
dessa hora feita chama
nascida desta fúria que se ergue
na morte duma noite a sudoeste.


VieiraSilva

Mulher (Vieira da Silva)

nos momentos de incerteza
quando apetece fugir
e desistir da viagem
quando cansado de tudo
me sento à beira da estrada
e adormeço a coragem
são os teus gestos
mulher
que me chamam
para a vida
e sinto de novo a fúria
de desenhar um país


Canção para um povo triste (Vieira da Silva)

canto o povo triste
de quem sou
louco em cantar
para esquecer
os sonhos tidos
na manhã da vida
sol de madrugada
livre no morrer
canto a heroicidade
conformada
de quem chorando
se atreve a cantar
barco perdido
na prisão das ondas
as velas rasgadas
o leme a quebrar
canto a solidão
a ocidente
ligada à terra
que nos viu nascer
a covardia
feita de orações
na doce esperança
de poder morrer
canto o desespero
fatalista
de quem sofrendo
se deixa ficar
olhos cansados
enxada na mão
trabalhando a terra
que lhe vão roubar
canto o meu poema
de revolta
ao povo morto
que não quer gritar
que já são horas para ser feliz
que é chegado o dia do medo acabar.


VieiraSilva

Esta certeza (Vieira da Silva)

e a mágoa
é esta certeza
que não consigo calar
que a vida
é este cansaço
de onde amanhã vou partir
para não sei que lugar


O tempo é de guerra (Vieira da Silva)

os barcos são estes
partamos
o sol vai nascer
icemos as velas
larguemos do cais
há um dia novo a fazer
o mar é uma seara
o vento é uma foice
lancemos as redes
irmãos
somos um só corpo
unidos na faina
na força de darmos as mãos
na praia cinzenta
os homens cansados
dormem à espera de nada
vamos acordá-los
juntemos os braços
é urgente rasgar uma estrada
aldeias morrendo
cidades caídas
país esquecido na areia
vamos transformá-lo
gritemos amigos
já o fogo na forja se ateia
bigorna martelo
batalha bandeira
arados na terra a lavrar
o tempo é de guerra
até à vitória
vamos pelas ruas lutar.


… Acho que escrevo sempre o mesmo
poema. As palavras é que são diferentes…


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Darol Anger & Mike Marshall

Ligações
Vieira da Silva

Textos:
Vieira da Silva

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012