Sons da Escrita 094

22 de Dezembro de 2006

Primeiro programa do ciclo Vinicius de Moraes

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Vinicius de Moraes

A uma mulher (Vinicius de Moraes)

Quando a madrugada entrou, eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito!
Estavas trémula e o teu rosto pálido e as tuas mãos frias
e a angústia do regresso morava já nos teus olhos.

Tive piedade do teu destino, que era morrer no meu destino…
Quis afastar de ti, por um segundo, o fardo da carne,
quis beijar-te num vago carinho agradecido.

Mas, quando os meus lábios tocaram os teus lábios,
eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
e que era preciso fugir para não perder o único instante
em que foste, realmente, a ausência de sofrimento,
em que, realmente, foste a serenidade. 


When a woman cries (Joshua Kadison) 

When a woman cries, when a woman cries,
she can wash your world away.
When storms fill her eyes, when storms fill her eyes,
you never know just what to say.

Don't say a word, don't say anything.
She don't need your truth or lies.
Just hold her close and love her
when a woman cries.

When a woman cries, when a woman cries,
there is no sadder song.
So you apologize, you apologize,
even if you don't know what you've done wrong.

But if you really want to make her happy,
to stop her sobbing and her sighs,
just hold her close and love her
when a woman cries.

Now don't you waste your time thinking
'bout the right thing to say.
Just put your arms around her
'til the clouds roll away

When a woman cries, when a woman cries,
she can tear your dreams apart.
When storms fill her eyes, when storms fill her eyes,
it can break a... break a man's heart.

And if you find that you are crying too,
don't let it come as no surprise
Just hold her close and love her
when your woman cries.


Vinicius de Moraes

Ausência (Vinicius de Moraes)

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces,
porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto, a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
e eu sinto que no, meu gesto, existe o teu gesto e, na minha voz, a tua voz.
Não te quero ter, porque, no meu ser, tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados,
para que eu possa levar uma gota de orvalho, nesta terra amaldiçoada,
que ficou na minha carne, como uma nódoa do passado.

Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face noutra face,
os teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite,
porque eu encostei a minha face à face da noite e ouvi a tua fala amorosa;
porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
e eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só, como os veleiros nos portos silenciosos.

Mas possuir-te-ei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenada.


Esquinas (Djavan)

Só eu sei
As esquinas por que passei
Só eu sei só eu sei
Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar
Sabe lá
Sabe lá
E quem será
Nos arredores do amor
Que vai saber reparar
Que o dia nasceu
Só eu sei
Os desertos que atravessei
Só eu sei
Só eu sei
Sabe lá
O que e morrer de sede em frente ao mar
Sabe lá
Sabe lá
E quem será
Na correnteza do amor que vai saber se guiar
A nave em breve ao vento vaga de leve e trás
Toda a paz que um dia o desejo levou
Só eu sei
As esquinas por que passei
Só eu sei
Só eu sei
E quem será
Na correnteza do amor...

Vinicius de Moraes

O verbo no infinito (Vinicius de Moraes)

Ser criado, gerar-se, transformar
o amor em carne e a carne em amor; nascer,
respirar, e chorar, e adormecer
E nutrir-se para poder chorar.

Para poder nutrir-se; e despertar
um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
e começar a amar e então sorrir,
e então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
e perder, e sofrer, e ter horror
de ser e amar, e sentir-se maldito.

E esquecer tudo ao vir um novo amor
e viver esse amor até morrer
e ir conjugar o verbo no infinito...


Infinito (Djavan)

Tô perdido por alguém
Não consigo ver nada além
Do que eu digo nada sei
Compreender o amor
Não é de hoje
Já vai longe
E nem sinal
Hoje
Estou longe
Preso a você
Livre na prisão
Sem castigo
Faz chorar
Distraído rói devagar
É pedindo que Deus dá
Por falar no amor
Acho que vou buscar
Viver por você
Ou me acabar
Quem mandou me acorrentar
Fazer-me refém
Nas grades do amor
Te vejo lá no luar
Te espero lá do sol.


É claro que a vida é boa
e a alegria, a única indizível emoção.
É claro que te acho linda!
Em ti bendigo o amor das coisas simples!
É claro que te amo
e tenho tudo para ser feliz!
Mas acontece que eu sou triste...


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis Papathanasious

Ligações
Joshua Kadison, Djavan

Textos:
Vinícius de Moraes

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012