Sons da Escrita 095

23 de Dezembro de 2006

Segundo programa do ciclo Vinicius de Moraes

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Vinicius de Moraes

A ausente (Vinicius de Moraes)

Amiga, infinitamente amiga,
em algum lugar, o teu coração bate por mim,
em algum lugar, os teus olhos fecham-se à ideia dos meus,
em algum lugar, as tuas mãos crispam-se, os teus seios
enchem-se de leite, tu desfaleces e caminhas,
como que cega, ao meu encontro…

Amiga, última doçura,
a tranquilidade suavizou a minha pele
e os meus cabelos. Só o meu ventre
te espera, cheio de raízes e de sombras.

Vem, amiga,
a minha nudez é absoluta,
os meus olhos são espelhos para o teu desejo
e o meu peito é uma tábua de suplícios.

Vem. Os meus músculos estão doces para os teus dentes
e áspera é a minha barba. Vem mergulhar em mim,
como no mar, vem nadar em mim, como no mar,
vem afogar-te em mim, amiga minha,
em mim, como no mar… 


You won't be there (Alan Parson's Project) 

Show me a promised land and I will go anywhere
And if you ask me to take my time I'll wait for years
I'll hold on though the whole world tells me I'm wrong
Someday, someday
But it seems so long

Ask me to prove my love and I will do anything
So if they turn off the light of the sun why should I care
I'll hold on thought the whole world tells me I'm wrong
Then in the morning as you leave me
You touch my hand to show how much you care
But just when I need you
You won't be there

I'll hold on but I need a shoulder to lean on
Why if you love me must you leave me
Why are you going anywhere
Why must our love be something in the air
Cause just when I need you
You won't be there
You won't be there


Vinicius de Moraes

A maior solidão (Vinicius de Moraes)

A maior solidão é a de quem não ama. A maior solidão é a dor de quem se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a de quem, encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em redor. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e, encerrado no seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.


Le soleil est près de moi (Air)

Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi

Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi

Anywhere, I want you
Anywhere I want
Anywhere, I want you
Anywhere I want

Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi
Le soleil est près de moi....


Vinicius de Moraes

O desespero da piedade (Vinicius de Moraes)

Meu Senhor, tende piedade dos que andam de autocarro e sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...; mas tende piedade também dos que andam de automóvel: quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na condução.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas e em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos; mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam e sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta, que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina; mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do desporto e que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá, que são virtuoses da própria tristeza e solidão; mas tende piedade também dos que buscam o silêncio e, de súbito, se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram e para quem o suicídio ainda é a mais doce solução; mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram e se tornam heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos, que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão e tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão, que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros,que se efeminam por profissão, mas são humildes nas suas carícias; mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo: que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria, que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos; mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo — Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas, que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer; mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia, que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos, pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão; mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
fazei, Senhor, com que eles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres. Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres. Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres. Ulcerai até a minha minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida, de casa, comida e roupa lavada, da moça bonita; mas tende mais piedade ainda da moça bonita, que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais, que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação e sonham exaltadas nos quartos humildes, os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito, onde se cria a primeira alegria da Criação e onde se consuma a tragédia dos anjos e onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto, em que ela é como a água explodindo em convulsão, em que ela é como a terra vomitando cólera, em que ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas, porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade, mas tende piedade também das mulheres casadas que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas; mas que vendem barato muito instante de esquecimento e em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas, de corpo hermético e coração patético, que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas, que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres, que ninguém mais merece tanto amor e amizade, que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade; que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras, que são crianças e são trágicas e são belas, que caminham ao sopro dos ventos e que pecam e que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade e outra, à simples emoção do amor piedoso delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas a vida fere mais fundo e mais fecundo e o sexo está nelas, e o mundo está nelas e a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres, dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede, enfim, piedoso com todos, que tudo merece piedade.
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!


Hear me Lord (George Harrison)

Forgive me lord
Please, those years when I ignored you, hmm
Forgive them lord
Those that feel they can't afford you, hmm

Help me lord, please
To rise above this dealing, hmm
Help me lord, please
To love you with more feeling, hmm

At both ends of the road
To the left and the right
Above and below us
Out and in, there's no place that you're not in
Oh, won't you hear me lord

(Hear me lord)

Help me lord, please
To rise a little higher, hmm
Help me lord, please
To burn out this desire, hmm

Hear me lord, please
Hear me lord, please

Oh, won't you please, please
Hear me lord
Oh, hear me lord
Hear me lord

Now, won't you please (hear me lord)
My lord, my lord, my lord
Won't you please / (Hear me lord)
Oh, hear me lord, hear me lord
(Hear me lord)


Vigia os teus pensamentos, porque eles tornar-se-ão palavras.
Vigia as tuas palavras, pois elas tornar-se-ão actos.
Vigia os teus actos, pois eles tornar-se-ão os teus hábitos.
Vigia os teus hábitos, pois eles tornar-se-ão o teu caracter.
Vigia o teu caracter, porque ele será o teu destino.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Night Noise

Ligações
Alan Parson’s Project, Air, George Harrison

Textos:
Vinícius de Moraes

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012