AbelNeves

Abel Neves
Quatro vezes sete versos para aquela rapariga


Quatro vezes sete versos para aquela rapariga

Enquanto não vens     nem tu sabes     é assim

uma casa que só cheirasse a uvas de setembro

Este quarto     esta sala onde o som contínuo é Out of

Nowhere soprado pelo Charlie Parker

Há calma com vento que vem quente enquanto não vens

e podes ter a certeza que o soalho vai ter aroma de estações

A que menos entenderes para melhor a desejares



Entretenho-me com uma breve meditação

sobre o perfil de um velho índio apsaroke

e tenho-te     rapariga     na visão do vale dos bisontes

onde esperas o bafo morno do fim da tarde

ajeitando o lenço na cabeça e sorrindo

entre o voo de alguns insectos

e a recordação destes dedos que te escrevem



Não me leves a mal se te falo de coisas tão domésticas

mas neste falar assim é que as plantas destes vasos

crescem para o tecto e é lá que está o éden delas

ainda que o vá sendo sempre o ar e

a luz que tomam

cada dia     perto     muito perto das menores palavras

com que te aviso do paraíso tão à mão



Hoje sinto-me lesma     será isto lucidez?

e não tenho sexo nem para as horas

nem lei para esta coisa suave

que é dançar na metafísica como astronauta para lá da gravidade

Cá vou indo     menina     cá vou indo

e não me peças versos que os não dou

por os não saber fazer ou ler ou nada


© José-António Moreira 2012