AbelNeves

Abel Neves
Amando a agilidade das ervas


Amando a agilidade das ervas

Amando a agilidade das ervas
outra planta domina o calor 

A água ilumina-se 

Eis-nos     eternos retratos do espanto 

Como     finalmente     se dão as mãos à terra? 

Este é o silêncio da boca 
e     como dizê-lo?     a exacta solenidade do seu recorte 

Fulgor de quem confunde? 

Ardor de quem espera? 

Esta é a consciência dos dias



Vejo-te ainda na coroa da luz
a navegar por cima do tempo 
sacudindo os panos     gozando a cerimónia do riso 

Digamos que a tragédia é toda tua 
inteiro pano de incendiadas rendas 

Não se demora o olhar 
sobre esse tempo 
porque tudo arde 
a carne     o lugar     os dedos 

Mesmo que mortes houvesse
tudo continuaria assim 
à flor dos lábios 
rompendo da altura do silêncio


© José-António Moreira 2012