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Alberto Pereira
Corpo de trevas


Corpo de trevas

Naquele dia em que a evidência saltou mais cedo da madrugada floresceu no meu corpo o sobressalto.
Era Agosto, remara noite dentro por um rio escuro embalsamado de medo e nas águas nocturnas vi-te boiar no branco trágico do céu.
Desconhecidos enrolavam-te em mágoas, ciclones carcomiam-te as plácidas lembranças dos desejos, suspiros moribundos entoavam estrondosos no terror das expectativas.
Fazia já algum tempo que os meses entornavam uma espantosa desolação sobre a alma, essa que orvalhada de simplicidade se deixou enganar pelas mãos nodosas da fé.

Mãe,
Quando te vi, estavas edemaciada de sombra, olhar ulcerado na neblina, coração feito tormenta.
Lia-se em todas as esquinas a serenidade geneticamente exilada nas garras ímpias da decadência.
Sonhos desfeitos espreitavam a falésia escarpada do inatingível.
Havia palidez inconsciente na existência e um clarão a murmurar a névoa que não entendia.
Ordenhei a incompreensão, paralisei o desespero e falei-te sem nada dizer, mas estavas já debruçada sobre a sedução venérea do degredo.
Degluti desabrigo e com a seiva íntima da coragem esculpi o apelo que desmentisse a tua desistência.
Quis dizer-te naquele momento tudo o que o egoísmo queimou no calor frenético dos dias. Mas o sofrimento audacioso decapitava-te já a respiração e sobre a fulgurante agonia desfaleciam léguas de ilusão.
Peguei-te e corri pelos escombros do destino até onde te pudesse resgatar da catástrofe.
Senti como nunca o sedimento estéril do instante, o equívoco intemporal dos desejos, o êxtase precário da eternidade.
De súbito o mundo parou. A imobilidade segregou o hálito macabro do fim.
Morri nessa tarde na metamorfose estival das emoções, submerso na tua ausência vitalícia.


© José-António Moreira 2012