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Alberto Pereira
Não te enganou a primavera com beijos que não floriram?


Não te enganou a primavera com beijos que não floriram?

Nunca digas amor,
sem saberes que os vermes
nascem na ressaca do paraíso.
O tempo tem essa essência de falésia,
fazer do céu
o ígneo chicote para as lágrimas.

Já imaginaste o tecto a descer os degraus,
a entrar-te pela cidade
com pálpebras esmagadas?
O cume a ser o solo?
Pisas então essa palavra
que dizia alucinações aos órgãos.
Muros como se fossem as teclas magnólias.

Escreveste com a língua tantas coisas,
imitaste com ela as ondas.
O mar cabia na boca sem margens.
Às vezes,
largas planícies demoravam fábulas na saliva.
Os beijos realizavam as aves.
E depois dos beijos,
as facas prometiam dias capazes de palácios,
fidelidade sem vento,
ouro com lisura infantil.

O ferrão é o testamento tardio do mel.

Os corpos continuam,
ondas que vão e vêm numa maré magnífica.
Sol estéril, adrenalina furibunda,
gangrena doce.

Amadurece o petróleo, combustão do tempo.
O futuro recua.
Amores com magnitude desavinda,
pétalas em contramão,
terrores deitados, mas com subtileza.

Abrem-se clarabóias na cabeça
para que todos saibam,
pela frente se mostra a traição.

A testa, casa do segredo jubilado.
O poema regurgitando
feridas altas como prédios.
A boca,
fábrica de ódio em infinito trabalho.

O corpo é agora moldura desmedida.
Retratos com espinhos,
assoalhadas para a solidão,
mentiras com um espanto terrível.

A Primavera são revólveres que floriram.


© José-António Moreira 2012