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Alberto Pereira
O outono entra legalmente ou é uma estação clandestina?


O outono entra legalmente ou é uma estação clandestina?

Os poemas não gostavam do meu bairro.
A miséria era um arranha-céus,
por isso, quando me perguntavam onde morava,
dizia,
Nova Iorque.

Havia homens com vinho no lugar do sangue.
As mulheres cheiravam a um velório eterno,
as crianças diziam coisas
que os carteiros desconheciam.

“Os políticos são cartas sem código postal”.

Os economistas, esses passavam o tempo
a trocar as moedas lá de casa por vazio.

Os meus pais detestavam correspondência,
trazia convites para o tribunal.
Depois vinham polícias e algemavam a casa.

Nós saíamos.

Já não havia telhado,
as paredes ficavam sem gritos
e os santos podiam espreitar-nos o património.

Perguntava,
como se fecham as portas ao ácido?

O meu pai parecia um hospital,
tinha aflições.
Havia mofo nos seus olhos.
Eu com os dedos
desenhava uma ideia larga,
segurava-lhes o pó.

Não entendia,
se as estações são quatro
porque era sempre Outono na minha mãe.
Nela tudo caía.
Os dias tinham sido,
muros que se confundiram com pássaros,
nuvens interpretadas como asas,
pólen com a colmeia deprimida.
Quando as lágrimas transbordavam,
a sua face ficava um rio
e eu,
deixava-lhe beijos como barcos.

O tempo meteu-me no naufrágio.
Não controlei as rédeas ao vento
e bem dizia Sylvia Plath
“a voz de Deus está cheia de correntes de ar”.

Agora sei,
o Outono é bilhete de identidade,
fala legalmente de muitos corpos.


© José-António Moreira 2012