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Alberto Pereira
O princípio da noite


O princípio da noite

O princípio da noite
é uma criança que acabou.
Cedo o pensamento aprende a ser jibóia.
Na garganta crescem semáforos.
Levar as palavras ao alfaiate,
medir o verbo,
ensinar meditação às sílabas
e às vezes,
detonar metáforas, engolir as asas.
A língua vai andando até à cólera,
alugar vénias aos lábios faz parte do protocolo.

A continuação da noite
é um homem que rejeita trovões.
Procurar a montanha, suicidar pássaros,
sentar o poema no banco dos réus.

Os anos são frota de cardos
escondidos na algibeira.

De repente o bolso fica roto,
o horizonte pica.
Olha-se o céu.
No seu atelier de igrejas,
Deus desenha o cesto de esmolas.
Por cada bondade ectópica
rezar dez fantasmas.
E o deserto assim faz,
de joelhos vai aliviando cólicas aos pecados.

Os homens avançam,
a lepra foi o ofício do tempo.
Lavar os dentes às sombras
dá direito a uma igreja no céu.
Nas catedrais os accionistas de batina alertam,
o paraíso está em crise.
Que importa isso,
a inflação da paisagem merece o esforço.

Um dia as rugas trazem a criança.
Os brinquedos recordam aquela fotografia
e contam tudo.
O homem é uma igreja sem nenhum céu.


© José-António Moreira 2012