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Alberto Pereira
Desconto para a insegurança social


Desconto para a insegurança social

Desconto para a insegurança social,
para não ter direito ao sangue.

No parlamento barbeia-se o pus.
Mas para quê,
se as veias só têm flores enforcadas.

Quando fiquei doente o dinheiro roeu a trela.
Já sabia,
carteiras com frio, aprendem dilúvios.
 
Atirei o coração para outro sítio.

Fui pelas ruas e fiquei espantado,
o mundo era um canto sem lugares vagos.
Na calçada, profetas erguiam capelas
para subir às papoilas.
As moedas nas suas mãos
compravam anjos que metiam nas seringas.
Havia também os que chegavam ao paraíso
por um gargalo,
corriam a salivar tabernas.
Em breve um copo navegava na boca.
O álcool partia de barco até Camões,
os poemas atracavam no fígado.

Não era aqui o meu destino.

Dei um novo rumo ao peito,
fui apregoar nuvens para a feira.
De repente levantou-se um teatro.
Todos se riram com ferocidade,
acenavam com folhas que imitavam bandeiras.
Foi assim que soube,
dentro da minha pátria havia um esconderijo.

Rendimento Mínimo Garantido.

Aí viviam homens com calos nos braços,
pernas que gostavam de dormir,
corações com feriado.
Em alguns apenas sorria o indicador 
por exercitar o gatilho.
A garganta era um revólver.
Nesta vivia um cão.
Quando o dedo dava ordens,
erguia as orelhas.
Todos evitavam que ladrasse pólvora.

Segui então por onde os olhos podiam,
dobrei a esquina.
Corpos agitados esbracejavam suas gruas.
Coloquei-me naquele rio, deixei-me ir.
A foz era uma porta estreita.

Entrei.
O rio dava para um celeiro.
Na secretária, a ninfa com face de inferno
perguntou:
“Que deseja do tubarão, ouro ou sombra?”

Respondi:
trabalho.

Ao longo das mesas
várias cabeças pasmadas me carimbaram.
Os homens que eram um rio disseram:
“vai para a margem”,
e eu fui.
Dali ouvia as vozes gritarem,
violador de poltronas.

Finalmente percebi quem eram,
artistas e não rios.

Havia de tudo.
Inventores de depressões,
piegas sensuais,
criadores de febres,
projectistas de maleitas,
e até advogados do tédio.
Quando li,
Subsídio de Incapacidade para o Trabalho,
soube,
parte deles eram domingos imortais.

Ordenei à cabeça,
procura outros dias da semana.

Tanto insisti que encontrei emprego.

O patrão disse-me,
pago-te se produzires sol
e declararmos naufrágios.

Recusei.
Tornei-me ilha.

Então à frente dos meus olhos,
o tubarão com pústulas foi à falência.

Eu vi quem o devorou.

O meu país chama-se subsídio.

© José-António Moreira 2012