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Alice Vieira
Pelas mãos e pelos olhos eu juro


Pelas mãos e pelos olhos eu juro 

1

são as mãos que me trazem o amor dos homens
e me largam na fronteira de todos os segredos
que repousaram em mim como no breve espaço
de uma lua fugaz

também as tuas mãos haviam de chegar um dia assim
ou pelo menos foi isso que eu pensei quando
o teu corpo tocou ao de leve a sombra das águas
que tinham corrido ao longo das noites da tua ausência

mas às vezes o destino escreve-se
com inesperados visitantes
e o nosso quarto ficou cheio de vozes mas
nenhuma nos reconhecia por dentro das suas
mais absurdas dissonâncias

e foi então que eu soube que a felicidade
era apenas um complemento
muito circunstancial e remoto de lugar onde

em que nenhum passado que nos pertencesse
faria qualquer sentido

apesar de tudo os meus dedos
ainda procuram reter o sôfrego sabor das horas que faltam
para o prometido regresso
das palavras tecidas de fresco entre a penumbra
das nossas pernas

mas houve sempre desígnios imutáveis
eclipses ravinas ou a ácida saliva das marés
ou simplesmente a ferida de quem vinha
em voz baixa reclamar o que lhe fora roubado
e os meus dedos acabavam por recuar

e as palavras com que em tempos
tinhas esperado por mim
cansaram-se
e são hoje nódoas rosadas no meu corpo

como se o meu corpo fosse um mapa
onde o teu corpo deslocou minúsculas bandeiras
em tempo de guerra


2

como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem


3

deixa que eu te diga as palavras enormes
que se erguem hoje das ruas gretadas
pelo rigor súbito de agosto

delas nascerá sempre o verbo justo
de sons claros e rectilíneos
com a ração de lua e mar que ainda me deves
escondida em todos os desertos por onde andei
sabendo que estavas muito longe mas que estar aqui
era ainda muito mais longe

apesar disso houve sempre
palavras enormes à nossa espera
que fomos largando pelos corredores das casas
onde lentamente morríamos ao som cruel da infância

mas talvez o futuro tenha começado agora mesmo
com este nome mais verdadeiro e menos gasto
com estas mãos com estes olhos
com que juramos regressar ao que um dia habitámos

às palavras rigorosas e claras
que descobriram outros brandos lugares
para esperarem por nós de sílabas lavadas

como o chão da casa onde largámos o medo
e os seus mais antigos significados


4

pelas mãos e pelos olhos seremos então capazes de jurar
e também pelas horas húmidas em todas as camas vazias
onde mordi o teu nome nos vincos bordados dos lençóis antigos
em noites de chuva e ruas desconhecidas
com janelas por onde se escoava
a tristeza gotejante de um amor de 40 volts

mas já então havia muitas outras palavras entre nós
que não éramos capazes de pronunciar
sem que a noite se precipitasse no nosso corpo
porque nenhuma delas guardava a marca da tua língua
e por isso à hora certa desapareciam

e a que então era eu fechava os olhos e acreditava
que nada daquilo era ainda o que lhe tinha sido prometido

e por isso todos os dias ressuscitava
de todas as camas de todas as águas de todas as mortes
à espera de um sinal


5

quando foi que começámos a repetir os gestos
que um dia escondemos na poeira do sótão entre
um disco de Mozart e os cadernos das redacções
onde escrevíamos «eu gosto muito da primavera»
como se a primavera nascesse das tardes
que tinham sobrado perigosamente do inverno
como as epidemias de antigamente escorrendo
das paredes dos quartos onde nos habituámos
a não esperar mais nada para lá dos olhos das mães
que muito ao longe ferozmente nos desamavam

quando foi que começámos a repetir os gestos
amenizados pelo silêncio que eu colocava
em posições estratégicas para que ao acordares
os fosses procurar mesmo antes do primeiro cigarro
na teia de subtis enredos donde não conseguisses regressar
e ao menos tu acreditasses na infalibilidade
das palavras pronunciadas diante do mar

quando foi que passaste a nascer dos meus dias
e eu a olhar para ti como se tivesses chegado
sem avisar ninguém e pedisses para ficar
a um canto do quarto assistindo ao render das horas
nos relógios de parede que paravam
no exacto momento em que as mulheres da casa
trancavam o coração e partiam

quando foi que acordaste de todas as noites
de todas as manhãs de todos os espelhos
e encheste a doçura melancólica de todos os outonos
que em mim lançaram âncora e ainda hoje
estabelecem diariamente o limite rigoroso da vida

— com a força daqueles objectos familiares
que deixam marcas esbranquiçadas
na poeira antiga dos móveis
quando alguém chega e sem razão
os muda de lugar


6

a quem por ti pergunta digo sempre
que habitas nos caminhos que vão dar
a todas as perguntas que fazemos
depois de termos morrido muitas vezes
e sem que o percebam dou-te o nome
mais perfeito que há na terra
para dar a quem vai desaparecer

eu sei que já é tarde que sempre foi tarde
mesmo quando ainda era muito cedo
mas também sei que não há mais nada para lá
dos secretos recantos das histórias que nos pertencem
e abro a janela de todos os meus sentidos
deixando que tudo o que era teu desapareça contigo
entre os murmúrios das horas que já nem recordam
o caminho de regresso ao sobressalto da tua voz
quando no parapeito das madrugadas
lentamente morríamos de frente para o sol

e não vale a pena tentar voltar ao princípio
porque a memória se encarregou de demarcar
o novo território dos teus passos
e qualquer estrada seria um outro deserto
onde nem sequer seríamos capazes de descobrir
o cheiro secreto de águas perdidas

por isso vai sendo tempo de escrever nas dunas
a rota de todos os tesouros que perdemos
para que outros cheguem e digam foi então
aqui que tudo começou

vai sendo tempo de convocarmos os amigos
para que as suas mãos curem as chagas
de precipitadas despedidas

vai sendo tempo de voltares para casa
e de entre nós baixar um deus que finalmente
saiba destinar a cada um
o amor que lhe compete


© José-António Moreira 2012