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Alice Vieira
Amor e outros crimes em vias de perdão


Amor e outros crimes em vias de perdão 

1

tu nunca hás-de entender o tamanho das noites
em que gastei tudo o que havia
por dentro dos meus olhos
os rios que de ti desaguaram sempre
nas minhas veias

eu não sabia
ou talvez já o tivesse esquecido
como podem ser mortíferas as cinzas
das palavras que um dia tiveram asas

e ainda mais mortíferas as garras
que nos destroem com os pequenos medos quotidianos
a que não podemos escapar
porque as sílabas da paixão são sempre
os primeiros objectos a serem retirados do quarto
para que tudo regresse à prateleira certa
e de manhã a poeira nos vista
tranquilamente
como um hábito

e foi por isso que nessas noites morri muitas vezes
enquanto as secretas palavras de adeus alastravam
pela foz do teu desejo
e a minha pele se despia
vagarosamente
da tua


2

eu gostava de poder dizer
que entrei no teu corpo como um pássaro
espreitando de invisíveis ruínas
e que o som da tua voz bastava
para me salvar

mas de nada serve inventar palavras
quando as palavras que inventamos
não passam de frágeis lugares de exílio
dos gestos inventados fora de horas
delimitando o espaço de tantas mortes prematuras
de que jurámos ressuscitar um dia

— quando os deuses se lembrassem
de acordar ao nosso lado


3

com passos de nevoeiro saíste de mim e disseste
agora vou morrer noutro corpo
para que nunca mais tenha na minha pele o pânico
das madrugadas que me levavam ao remorso
de acordar no mais fundo de ti

saíste com passos de nevoeiro
e disseste   desculpa ser assim
e eu nem respondi porque sabia
que não eras tu que desaparecias mas apenas
o que em teu nome um dia tinha vindo

para que eu não morresse tão longe do lugar do amor 


4

com que palavras irei escrever agora o nome
das horas que entram pela cama em que noutra vida
te ensinei o caminho do meu corpo
e da justeza dos gestos com que a alegria
se desenhava em mim quando dizias
agosto tu vais ver é a nossa pátria

nessa altura o verão vinha ainda muito longe
e por isso era possível acreditar em frases dessas
esperando que tudo acontecesse
como nos perdoáveis lugares-comuns dos filmes
que estreiam sempre no natal
e furiosamente desejei que a paixão se enredasse
entre os limos e sargaços das tuas pernas

mas agosto foi apenas um lugar de emboscadas
em todos os precipícios da nossa cama
e lentamente as águas definiram
com rigor implacável
o que sobrava de ti nas minhas mãos
e o silêncio baixou sobre as águas
como antes da invenção do mundo

e agora não sei onde acaba o teu nome

e começa o nome de deus 


5

a língua sobre a pele    o arrepio
os teus dedos nas escadas do meu corpo

as lâminas do amor    o fogo    a espuma
a transbordar de ti na tua fuga

a palavra mordida entre os lençóis
as cinzas de outro lume à cabeceira
 
da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
nada do que era teu vou devolver


6

entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios


7

deito-me à sombra das tuas pernas
e o corpo arde em todos os movimentos
que não ousaste prolongar
na toalha branca da minha pele

deste lado a dor
é completamente minha
e    por assim dizer    inútil

era capaz de jurar
que nem me viste


8

a primeira coisa a fazer
é escolher a faca

ou por outras palavras    a maneira
de poder acordar em camas desfeitas
de luas e mares
sonhando com o verão e todos os seus crimes lentos

depois há que não dar tréguas
e ocultar de imediato as provas

ou    por outras palavras
desabitar de ti as ruas    os quartos    as molduras
a velha canção inutilmente decorada
e abrir a porta a quem chega
desprevenidamente
e encontrar o teu rasto ainda intacto
e servir o café e a cicuta
na mesma bandeja

mas acima de tudo
edificar de novo a casa entre ruínas
ou    por outras palavras
enterrar na garganta um nome que era nosso
apagar dos muros da cidade os vestígios da noite
e por breves segundos iluminar ainda do teu sangue
a madrugada em que te perco
e fecho os olhos
e abro o gás


© José-António Moreira 2012