RamosRosa

António Ramos Rosa
Quem escreve
Escrevo-te com o fogo e água


Quem escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer 

num ébrio barco de calma confiança. 

Quem escreve quer dormir em ombros matinais 

e na boca das coisas ser lágrima animal 

ou o sorriso da árvore. Quem escreve 

quer ser terra sobre terra, solidão 

adorada, resplandecente, odor de morte 

e o rumor do sol, a sede da serpente, 

o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho, 

o negro meio-dia sobre os olhos.


Escrevo-te com o fogo e a água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te 

no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.

Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.


O que procuro é um coração pequeno, um animal

perfeito e suave. Um fruto repousado,

uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado, 

uma pergunta que não ouvi no inanimado, 

um arabesco talvez de mágica leveza. 


Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma? 

Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore. 

As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos. 

O vento abriu-me os olhos, vi.


© José-António Moreira 2012