Arselio2

Arsélio Martins
Não sei


Não sei

Um dia, há muitos anos, um poeta amigo escreveu três versos aparentemente desconexos. Fiz-lhe notar que, do primeiro para o segundo, a escada não tinha quaisquer degraus e, do segundo para o terceiro, nem degraus nem sinal de lá ter estado qualquer escada.

Ele tinha o hábito de encolher os ombros e, por isso, fiquei sem saber se, naquela altura ele estava a encolher os ombros para responder à minha observação. De qualquer maneira, não insisti na observação e ele nunca comentou o meu reparo.

Aos quarenta anos, o poeta publicou o seu terceiro livro de poemas. Ao folhear o livro deparei com o poema dos três versos  a que faltavam algumas das palavras da versão original.

Ao ler os três versos agora, passados tantos anos, achei-os belos —  sou agora capaz de ver os degraus —  e referindo-lhe as minhas dúvidas do passado, acabei por lhe perguntar pelas palavras que faltam.

Ele encolheu os ombros, mas falou desta vez. Tinha caído tinta no original e ele  simplesmente não tinha conseguido decifrar essas palavras. Considerando-as insubstituíveis, em vez delas, deixou espaços em branco. 

"Bem me podias ter telefonado" — foi o que me ocorreu dizer-lhe na ocasião para o ouvir dizer, sem qualquer ponta de ironia, enquanto encolhia os ombros: "Não são as palavras que fazem o poema. "
Então, o que é? —  perguntei.
E ele respondeu: "Não sei."


© José-António Moreira 2012