Bocage1

Bocage
Retrato próprio


Retrato próprio

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;


Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos por taça escura

De zelos infernais letal veneno;


Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,


Eis Bocage, em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades

Num dia em que se achou mais pachorrento.


© José-António Moreira 2012