David-Mourão Ferreira

David Mourão-Ferreira
Ladaínha dos póstumos natais



Ladaínha dos póstumos natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
Em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que não viva já ninguém meu conhecido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem o Natal terá qualquer sentido


© José-António Moreira 2012